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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. IV

     Manuel abriu os olhos de repente, sobressaltado. Teve de olhar três vezes para os dígitos luminescentes do relógio em cima da mesinha de cabeceira até que finalmente o seu cérebro entorpecido tivesse conseguido reter a informação de que eram quase duas horas da manhã. Ficou contente porque ainda tinha bastante para dormir – e bem que precisava, depois da última noite de trabalho –, mas sentiu que algo não estava bem. No escuro do quarto e da noite, virou-se na cama em direcção a Marta, que já não estava lá. Aliás, parecia já não estar lá há algum tempo, porque o seu lado da cama estava frio como o gelo.

     Tentou um sussurro:

     - Marta? Marta, onde estás?

     Nada. Não quis insistir, para não acordar as filhas, e decidiu que era melhor levantar-se para averiguar. Procurou pela casa toda, até no quarto das filhas, onde sabia que Marta se costumava refugiar em noites de insónias mais atribuladas. Mas naquela divisão, a mais, só encontrou o Nenúfar, deitado aos pés de Carolina, dirigindo-lhe um olhar desimportado quando ele abriu a porta, mas sem nunca deixar de ronronar.

     Cada vez mais preocupado, saiu à rua. Não viu nada nem ninguém, além de alguns animais vadios que faziam questão de derrubar os baldes do lixo com cheiro mais intenso lá do bairro todas as noites. Era por isso que ele, Manuel, fechava sempre o lixo orgânico num saco de plástico mais pequeno antes de o deitar para o bidão do lixo na rua.

     Deu uma volta pelo bairro, de pijama e pantufas, mas continuou sem ver ninguém. Onde raio se tinha metido a sua mulher?! Já vinha de regresso em direção à sua entrada quando, ao passar em frente à casa do vizinho – um alemão que lá de vez em quando gritava gritos de horror que se ouviam em todo o bairro, e sem razão aparente –, reparou que este tinha a porta da frente aberta. Algo que, tinha Manuel a certeza, não se tinha verificado quando tinha passado por lá a primeira vez.

     Disse a si próprio que ia só fazer um favor ao vizinho, fechar-lhe a porta e ir-se embora. Mas, talvez embalado pela estranheza de tudo o que lhe estava a acontecer, pela segunda noite seguida, decidiu antes entrar. A casa do alemão estava praticamente vazia. Quem não soubesse que morava ali alguém, diria que estava para venda. Paredes despidas de espelhos ou de quadros, móveis quase inexistentes, à excepção de algumas cadeiras dispostas ao calhas no meio da sala.

     Ainda às escuras – talvez para não assustar o vizinho, disse para si próprio –, Manuel encontrou as escadas para o andar de cima, e, por instinto, subiu-as. Enquanto galgava os degraus, um a um, a ouvir apenas o ligeiro som abafado das suas próprias pantufas contra as tábuas de madeira, começou a sentir um cheiro intenso, quase pútrido, semelhante àquele que emanava dos caixotes do lixo na rua e que tanto deliciava os animais vadios. Mas aquele cheiro, sabia-o, vinha de dentro daquela casa, do mesmo andar a que agora acabara de chegar.

 

(Próximo capítulo: Vasco Barcelos)