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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. III

     01:47h. Cozinhar sempre fora um obstáculo para Matthäus, mas nunca nada tinha sido tão difícil como os últimos dois dias. Sentia-se perdido sem Mariana em casa, o jantar era apenas uma parte da dificuldade que era enfrentar um dia-a-dia diferente do seu nos últimos 9 anos e meio. Sentia-se um verdadeiro inútil sem a ajuda da mulher, sem a sua opinião sobre a roupa que vestia pela manhã, sem o seu sentido de aventura que aparecia sempre no momento menos indicado, arrastando-o para situações desconfortáveis. Matt detestava não ter controlo sobre o que fazia, onde ia, como interagia com outros, que imagem transmitia de si mesmo.

     Mariana tirava-lhe essa capacidade de antecipar o futuro, de estar preparado, e isso acabara por ser bom, a longo prazo. Estava sempre preparado para não estar preparado, ela era louca pelos dois, mas de alguma maneira as coisas funcionavam perfeitamente assim. Pelo menos até ela se transformar numa completa estranha. Ninguém espera que encontrar a esposa coberta em cortes e terra no meio da cozinha, lendo um livro como se nada fosse, ignorando o gritante terror que a sua roupa transmitia.  

     Mariana não falara durante um dia depois do incidente, o que era normal. O que quer que tenha levado ao confronto com o novo cão lá de casa fora traumático e deixara marcas. Mas menos normal fora a tentativa de Matt de esconder o que se passara. Desde que se tinha mudado para Portugal que se sentia um pouco excluído, fora do seu ambiente. O que seria dele se perdesse o seu único suporte? Por isso guardou o comportamento da esposa para si para que os dois conseguissem resolver seja lá o que for que precisavam de resolver.
     Mas não havia como esconder o que se seguiu, Mariana não estava a sonhar quando saltou para cima dele durante a noite e agarrou com toda a força o pescoço de Matt, e certamente teria acordado com uma das várias tentativas do seu marido de a chamar à realidade. Mas continuara determinada a magoá-lo, com uma expressão calma no rosto, de quem está certo de que esta é a solução lógica para um problema. Por fim Matt ganhou o controlo da situação, depois de longos e angustiantes minutos e tentou racionalizar uma razão para este comportamento recente mas não conseguiu. Nem uma palavra, nem um só olhar recebeu de Mariana, a pálida mulher olhava para a porta de casa completamente aberta e os seus lábios lutavam contra si próprios para construir uma plavra, mas falhavam constantemente.
     Não havia como se esconder disto e não havia como ignorá-lo. O barulho atraiu os vizinhos e estes chamaram a polícia e uma ambulância. Matt viu-se num conjunto de salas de espera e atendimento, seguiram-se vários questionários e vários olhares preocupados. E ao fim da noite voltara para casa, mas Mariana ficara no hospital, sob o olhar dos médicos e dos dois poícias que dormitavam à sua porta. 
    Passaram-se dois dias, dois dias longos demais para viver com todos os pensamentos que lhe assaltavam a cabeça, não havia actividades suficientes no mundo que calassem todos os porquês que queria ver respondidos. E a impossibilidade de ver a sua própria mulher no hospital não facilitava a tarefa. Eram quase duas da manhã e só agora estava a jantar, não havia necessidade de cumprir horários, não havia ninguém para se chatear com ele pelo atraso. E esse era o problema. 
     Seguiu devagar para o quarto, ele sabia que nem a esta hora iria conseguir dormir. Abriu a porta do quarto que se esquecera que tinha fechado e desoladamente olhou para a cama vazia que o esperava. Mas esta estava tudo menos vazia. Sentada na sua cama estava a sua mulher Mariana, a chorar enquanto olhava para a janela da varanda do quarto. Matt, estupefacto, questionava-se como Mariana tinha conseguido enganar a segurança e o staff médico. Como conseguiu viajar desde o hospital até casa? Mas acima de tudo, o que o incomodava mais eram outras perguntas: porquê todo este comportamento? Onde estava a mulher com quem casara? A sua esposa era agora uma estranha sentada no seu quarto e o medo que sentia estava a começar a ser difícil de mascarar. 
     A mulher não parecia ter se apercebido da entrada de Matt no quarto ao início, mas após alguns segundos virou-se para ele e saíram-lhe as primeiras palavras que fora capaz de proferir desde a última vez que a vira acordada:
     - Outra vez... - disse entre soluços - Olha!
     Matt seguiu o seu dedo até à direcção da casa do seu vizinho Manuel. Parecia que todos estavam a dormir, a única luz visível era quase imperceptível no andar de cima, provavelmente de um dos quartos. Mas Mariana não se conseguia acalmar e parecia evitar olhar para a mesma casa para onde apontava, algo ali a assustava como nunca a tinha visto. Mas o quê? Era uma casa normal, um copy/paste da sua, onde os habitantes dormiam como mandava a hora e todas as... Matthäus prendeu o seu olhar com um pormenor que lhe escapara à primeira vista, a porta da frente estava aberta. Não havia nenhum carro suspeito por perto nem um assalto neste bairro era algo recorrente. 
     Dentro de segundos a luz do andar de cima acendeu-se e pareceu haver algum movimento na zona junto ao quintal nas traseiras, Matt calculou que se tratasse da porta da cozinha, tal como em sua casa. Virou-se com a coragem que a urgência exigia e preparou-se para sair.
     - Vou ver o que se passa, tu... - as palavras escaparam-lhe quando o seu olhar se prendeu na mulher que mais amou em toda a sua vida. Ela já não chorava nem mostrava qualquer réstia do receio de há pouco, a sua cara estava serena e os seus olhos negros focados. E na sua mão, uma faca.
     Matt abriu a boca mas as palavras não foram rápidas o suficiente. Pelo menos não o suficiente para acompanhar a velocidade do aço.
 
 
(Próximo capítulo: (Exmo.) Diogo Ourique)