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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. II

     Manuel tentou falar mas não conseguiu reproduzir qualquer som. Sentia-se petrificado no meio da escuridão, perfurada apenas pela fraca luz emitida pelo computador, que lhe permitia ver aquela silhueta que tão bem conhecia mas que nunca lhe tinha parecido tão estranha como naquele momento. Foi a voz mal-humorada de Marta a quebrar este estado e a trazer Manuel de volta à realidade.

     — Manel, por favor, acende uma luz ou apaga esse ecrã. — Manuel reparava agora na mulher. Sobrolho franzido e cara ensonada, com os braços caídos ao longo do corpo, a faca segurada de forma displicente e apontada ao chão. Teria imaginado a figura de Marta a dormir em pé e apontar-lhe a faca ou estava tão cansado que todos os sentidos já o começavam a enganar? Apressou-se a acender a luz da sala e, com o ritmo cardíaco a estabilizar, encontrou de novo a voz.

     — Estás bem, Marta?

     — Claro que estou bem. Estava a incomodar-me a luz forte do computador, só isso. Estás aqui no meio do escuro só com a luz do ecrã e mais nada aceso, quantas vezes já te disse para não o fazeres? Faz-te mal aos olhos.

     — Sim, eu sei, desculpa. — Manuel sentou-se novamente, ainda confuso com o que se tinha acabado de passar e esfregou os olhos.

     — Já é tarde, devias vir para a cama. — Disse Marta, enquanto pousava a faca em cima da mesa e começava a apanhar os maiores fragmentos de vidro. — Podes acabar o que falta amanhã antes da reunião, de certeza que… Manel, o que se passa? Estás bem?

     — Sim, só um pouco cansado, acho eu. — Respondeu ele, sem conseguir disfarçar um certo tremor na voz, facto que não passou despercebido a Marta que arregalou os olhos em sinal de preocupação. Manuel notou esta reação, sorriu e prosseguiu a explicar-se — Assustaste-me, só isso. Apareceste aqui de repente e com uma faca apontada a mim… que fazes levantada? E com uma faca?

     Marta não conseguiu evitar uma enorme gargalhada, para espanto dele, e aproximou-se para lhe afagar o cabelo — Desculpa — Disse, ainda a rir — levantei-me para vir buscar um copo de água, ouvi barulho do vidro a partir-se e agarrei na primeira coisa que vi. Não me apercebi que ainda estavas aqui a trabalhar. Não te queria assustar. — Sentou-se no colo dele e beijou-o.

     Com o ambiente mais calmo outra vez, e encontrada a estupidez de toda a situação, decidiram deixar a limpeza para a manhã seguinte e ir para a cama. Levantaram-se e passaram pelos restos de vidro no chão. O cérebro de Manuel ainda estava meio letárgico, por isso demorou a juntar as peças, mas algo não batia certo. Ela tinha dito que ouvira vidro a partir e fora isso que a fizera ir até à sala de faca em punho, mas…

     — Marta, então, não foste tu que partiste nada?

     — Não — Respondeu, confusa. Tinham acabado de ter aquela conversa. — Foste tu. Pára de gozar.

     Pararam os dois no meio do corredor a olhar um para o outro sem compreender bem o que estavam a dizer, até que Manuel suspirou e comentou: — Sacana do gato.

     O olhar dela não se alterou, olhava para ele com uma intensidade capaz de furar paredes. — O gato está a dormir na cama da Carolina, passei pelo quarto para ver as miúdas. Deixei a porta fechada. — Manuel retribuía agora o olhar com a mesma intensidade. Tinham sido os dois despertados pelo mesmo barulho, que, tirando os estilhaços de vidro no chão da sala, não tinha agora explicação.

     — Onde é que encontraste aquela faca? — Perguntou ele, com a voz a subir de tom.

     — Foi a primeira coisa que agarrei no balcão da cozinha. — Respondeu ela, como o terror a instalar-se na sua expressão.

     — Aquela faca não é nossa. Não temos nenhuma faca daquelas… — a voz saía intermitente da boca de Manuel.

 

(Próximo capítulo: Mr. Fro)