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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. I

     2:17h. Manuel levantou os óculos até lhe ficarem presos na testa, e esfregou os olhos. Já estava há cerca de três horas e meia em frente ao computador, com direito a apenas duas pausas para o chichi. O relatório, para ser entregue ainda nessa manhã, no trabalho, estava quase no fim, mas o seu cérebro começava a entrar naquela fase em que já não compreendia o que lhe era dito.

     Enquanto esfregava um olho – como o Diabo –, ouviu um barulho ligeiro atrás de si. Supôs que fosse o Nenúfar, o gato, a brincar com as suas caixas de cartão. Nenúfar era um nome horrendo, achava Manuel, embora tenha acabado por ceder à vontade da sua filha mais nova que, na altura, estava a aprender nomes de plantas na escola, e lembrou-se daquele à pressão.

     De repente, ouviu o estardalhaço daquilo que lhe pareceu ser um copo a partir-se. Ao virar-se para trás, para o outro lado da sala escura, na direcção da porta, confirmou a sua suposição. O chão escuro tinha alguns apontamentos de vidro brilhante no chão, que reflectiam a luz do ecrã do seu computador. Mas, mais importante do que isso, quando olhou um pouco mais acima, viu Marta. Continuava de pijama e de olhos fechados, da mesma forma que Manuel tantas vezes a tinha visto dormir. Só que, desta vez, estava de pé. Pior do que isso, tinha uma faca na mão. Não uma faca qualquer, mas uma daquelas tão grandes que apenas um chef de cozinha profissional saberia o que fazer com ela. Manuel, decerto, não sabia. E Marta, sabia ele bem, também não.

     A verdade é que aquela faca, empunhada pela sua esposa, estava apontada a ele. Manuel tentou dizer qualquer coisa, perceber o que se passava, mas o seu cérebro insistia em estar cansado e em não conseguir formular ideias. Além disso, e para piorar, tanto ele como o seu órgão pensador estavam em estado de choque.

     Estaria Marta acordada? Estaria a dormir? Não a tinha como sonâmbula, em cinco anos de casamento… Tentava acordá-la? Mas isso, lera algures, não era prejudicial para os sonâmbulos?

 

(Próximo capítulo: Vasco Barcelos)