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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Entrem e façam-se de casa!

Tenho a maior parte dos meus amigos chateados comigo e não faço ideia porquê. Sei que não fiz nada de errado, portanto a única explicação é que eles não estavam a ser honestos comigo. Porque eu assumo que quando alguém diz alguma coisa, quer mesmo dizê-lo e não são palavras vazias de significado. Eu sou simpático e aceito a simpatia dos outros. Ao que parece, os meus amigos não foram sinceros quanto à sua simpatia. Ou se calhar o problema sou mesmo eu, admito, mas custa-me a crer.

 

Por exemplo: fui jantar a casa do F. Como combinado entre os dois, fui mais cedo para ajudar na preparação. Quando cheguei, ele diz-me que tem de sair para ir comprar uma coisa qualquer que faltava, mas para eu entrar e começar a preparar a minha parte à vontade. "Faz-te de casa" disse-me ele. Muito bem, aí está uma coisa simpática que se diz e que deixa uma pessoa à vontade. Para me fazer de casa. Supus que estava a ser honesto, portanto fiz-me mesmo de casa. Estava eu a meio da preparação do jantar quando tocam à campainha. Fui lá ver quem era e não conhecia a pessoa. Tendo em conta que tinha sido deixado à vontade e para agir como se estivesse em minha casa, não abri a porta. Se não conheço uma pessoa, não vou deixá-la entrar em minha casa. Ela bem que barafustou que era a A., a nova namorada do F., mas qualquer pessoa pode dizer uma coisa dessas. E em minha casa não caio nessa esparrela. Avisei-a mais que uma vez; a certa altura tive de tomar medidas para defender o espaço que estava a tratar como meu. Chamei a polícia e disse que me estavam a tentar entrar em casa à força e enquanto esperei que chegassem fervi uma panela de água e atirei-lhe para cima. 

Para resumir a coisa, a polícia chegou para a deter mas teve de vir a ambulância também, porque as queimaduras eram muito severas. Entretanto chegou o F. e ficou incrédulo com o que viu. Começou a discutir comigo, o que acho uma falta de consideração dado que só fiz o que ele me pediu, mas depois teve de seguir para o hospital. O jantar ficou cancelado, como é óbvio. Por alguma razão o F. deixou de falar comigo desde esse dia, não sei se ficou ofendido com o email que lhe mandei a dizer que era de muito mau gosto cancelar o jantar minutos antes da hora combinada e que era uma vergonha desperdiçar toda aquela comida. 

 

Incrivelmente, este não foi o único caso. Em casa da L., a mesma conversa. Vou lá fazer-lhe uma visita, ela diz para me sentar, "faz como se estivesses em casa". Sim senhora. Estamos ali a meter a conversa em dia e noto que ela me está a olhar de esguelha pelo facto de ter tirado os sapatos e apoiar os pés na mesa. Notei que estava desagradada, mas fora ela que me tinha dito para fazer como se estivesse em casa. E se eu quando estou em casa gosto de tirar os sapatos e apoiar os pés na mesa da cozinha, mesmo que esteja a meio do lanche, quem é ela para me dizer que não? Mas a coisa não ficou por aqui, minutos mais tarde aparece-me um gato a roçar nos pés. Ora, para quem não saiba, eu sou alérgico a gatos. Portanto, na minha casa não. E para eu estar à vontade, o bichano não podia lá estar. Mais uma vez, não percebo a indignação da minha amiga, só se foi pela carta que lhe deixei a dizer que era de muito mau gosto ter um gato quando eu sou alérgico, e se me vou fazer de casa... Só pode ser pela carta, de resto não se passou assim nada. Já agora, resolvi o problema ao pegar no gato e atirá-lo pela janela do oitavo andar onde ela mora.

 

A minha amiga S. também está chateada comigo e, mais uma vez, não entendo bem porquê. Quando estava a fazer umas pequenas obras em minha casa e aquilo estava tudo de pantanas, ela disse que podia ir passar o fim de semana em casa dela, já que ela ia visitar os pais e não ia estar lá. Tudo combinado, apareço lá em casa e ela entrega-me as chaves, explica-me o essencial e diz para eu estar à vontade, "aqui estás em tua casa" disse-me ela. Ok, o fim de semana passou-se sem incidentes, mas no domingo ela chegou mais cedo do que disse que ia chegar. Logo aqui podem ver que eu não tive culpa nenhuma. Além disso, tinha-me dito que ali estava em casa. Assumi que ela estivesse a falar a verdade, acreditei na bondade do seu coração. Parece que era tudo falso. Aparentemente ficou muito chateada com a enorme orgia que se desenrolava na sua casa e muito chocada com o homem que se tinha coberto com as cinzas da sua falecida mãe e usava a urna para estimular outra pessoa. Qual é o mal? Se é aquele o fetiche daquelas pessoas... Foi tudo consensual e nas orgias em minha casa não há limites. E ali estava como que em casa...

Eu mantenho que ela ficou foi ofendida por não ter participado ou ter sido convidada. E nesse aspecto, talvez o meu reparo que se ela cuidasse um bocadinho mais de si poderia vir a ser convidada, não tenha caído muito bem. Só pode ser isso.

 

O último caso, e o que me levou a escrever isto tudo, aconteceu recentemente. Fui para o estrangeiro numa viagem de negócios e o meu amigo O. disse que podia ficar numa casa que ele tem. Assim poupava o dinheiro da estadia, já que trabalho por minha conta.

Deu-me as chaves de casa, as indicações e disse-me "Enquanto lá estás, é a tua casa. Fica à vontade". Foi muito simpático da parte dele, não foi? Pois, eu também pensei que sim, pelos vistos estava errado. É que a minha viagem de negócios não deu em nada e acabou por ser uma perda de tempo. Já que não ia regressar mais vezes, não me servia de nada ter uma casa naquela cidade. E como a casa era minha enquanto lá estava, palavras do O., vendi-a. Uma decisão normal e racional. Não sei porquê, não sei o que fiz, só sei que agora tenho que ir a tribunal porque o O. me está a processar. E éramos tanto amigos.

 

Alguém percebe o que se passou? Mais nenhum amigo meu me atende o telefone sequer, devem estar todos em conluio contra mim.