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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Apenas uns dias de uma vida normal

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08/04/2016

 

Querido Diário,
A primavera chegou e com isso alguns problemas em casa, como bem sabes. Tive de voltar a chamar um exterminador. Eu sei que estava sujeito a isso quando decidi mudar-me para a cidade, no campo não tinha estes problemas. Tenho de ficar fora de casa durante três dias e depois devo poder voltar, com a infestação resolvida.

 

09/04/2016

 

Diário do meu coração,
Estou a ficar em casa de um amigo até poder voltar à minha. Enquanto me estava a lavar notei que havia uma embalagem de condicionador. Ele é careca desde criança.

 

10/04/2016

 

Meu Diário fofo,
Dormir numa cama diferente afecta-me sempre a qualidade do sono. O Carlos disse-me que a meio da noite lhe entrei no quarto e tirei a lâmpada do seu candeeiro, mas não me lembro de nada.
Fui acordado de manhã pelo telefonema do meu vizinho, que me disse que estava alguém à minha porta para entregar um colchão e um candeeiro.

 

11/04/2016

 

Paixão de Diário,
O Carlos diz-me que é raríssimo aparecer algum em casa dele; um ou dois por ano em média. Logo por sorte foi enquanto eu cá estava. Estava a lavar a loiça e vejo um a espreitar e sair do espaço entre o armário e o frigorífico. Tenho nojo, mas estava sozinho e tinha de continuar na cozinha, pois tinha um assado a secar na máquina. Todo arrepiado fui para o apanhar e aproveitei quando parou de andar. Consegui dar-lhe com a colher de pau. Várias vezes até ter a certeza de que morria. Depois disso nem me quis desfazer dele, não gosto nada.
O que vale é que o Carlos não tem nojo nenhum. Quando chegou desfez-se dele num instante. E nem se importou com a quantidade de sangue espalhado pela cozinha, nem com os intestinos que tinham saltado para cima da mesa e que dançavam ao ritmo do motor do frigorífico. 

 

12/04/2016

 

Meu rico Diário,
Voltei hoje a dormir em minha casa. O exterminador disse que podia aparecer algum, que estivesse escondido e ainda não tivesse morrido. Mas para não me preocupar, que caso isso acontecesse, ele ia estar mais morto que vivo e não passaria de uma situação residual. Já não se podia reproduzir e a infestação estava tratada.

 

13/04/2016

 

Diáriozinho,
Voltei a ter o meu sonho recorrente esta noite. O tal em que participo numa competição de carpintaria e não consigo acabar a minha peça a tempo. A competição é ganha pelo indivíduo que tem os dedos da mão direita todos do mesmo tamanho. Quando vou para lhe cumprimentar, observo um gang de calculadoras a roubar o troféu. 
Acordei desconcertado e com o coração acelerado. Ah, além disso, estou a ficar sem detergente da roupa. E será que tenho toalhas limpas?

 

14/04/2016

 

Amável Diário,
O exterminador tinha razão e voltou a aparecer mais um homem aqui em casa. Estava no escritório, a finalizar o meu tratamento estatístico sobre o crescimento de alfaces nos dias ímpares do mês de Março em solos ricos em alcatifa, quando o vi. Não sei de onde apareceu, mas, tal como tinha dito o exterminador, via-se que andava desorientado. Estava a tentar trepar a parede e movia-se devagar. Punha os pés e as mãos na parede e deslizava até ao chão.

Tinha de o matar, mas imediatamente fiquei arrepiado só com a ideia. Estes seres enojam-me mesmo. Sei que dizem que não fazem mal, mas, para mim, não há nada pior que um humano. Seres nojentos e repugnantes. Atirei uma bota a ver se lhe acertava, mas falhei. O homem não ficou muito afectado pela tentativa, continuava ali desorientado e lento. Atirei a outra bota e consegui que lhe acertasse. Com ele já lá caído, dei-lhe repetidamente com a bota até cobrir todo o chão de sangue. É mesmo nojento. Quem diria que tinham tanto. Deixei a bota em cima do corpo e fui trabalhar para o quarto.

 

15/04/2016

 

Louvável Diário,
Já não me lembrava que tinha matado um homem no meu escritório. Continua lá com a minha bota em cima. Tenho de me desfazer dele mas tenho nojo mesmo quando estão mortos. Pensei ligar ao Carlos. Sei que era estúpido da minha parte, chamar ajuda só para deitar fora um homem que matei, mas é que não gosto mesmo nada. Lembrei-me, depois, que o Carlos estava fora da cidade, é um dos oradores convidados do XIX Congresso Nacional de Bingo.
Fui buscar um guardanapo e enchi-me de coragem, mas não fui capaz. Quando comecei a tocar no cadáver, o meu corpo recolheu-se todo. Que estratégias alternativas existem para me livrar de um corpo e que não incluam ter de tocar nele? 
Pensei em usar ácido, mas provavelmente ia dar-me cabo do tapete;
Podia chamar o exterminador, mas este ia gozar comigo, certamente, e cobrar algum valor absurdo;
Não tinha comprado sacos para o aspirador, por isso não o podia utilizar;
Queimar o corpo e depois varrer as cinzas podia resultar. Mas depois corria o risco de estragar as cortinas; Normalmente não me importaria, mas estas eram herança de família. O meu tio-avô tinha-se enforcado involuntariamente com elas, num dia que tinha sido atirado pela janela por uma partida dos filhos, que tinham posto uma mola debaixo do seu lugar preferido no sofá. Só foi descoberto quatro dias depois, pendurado na cortina pelo pescoço, do lado de fora da janela e com uma família de gaivotas a usar a sua cabeça como ninho.

Não sabia mesmo o que fazer, mas depois lembrei-me que, uma vez, eu e a minha irmã tínhamos matado uma barata. Os dois com nojo de ter de limpar o local do crime, mas com o stress de ter de o fazer antes da polícia descobrir, notamos que dezenas de formigas tinham vindo em nosso auxílio. Lembro-me que ficamos os dois durante um par de horas a observar, enquanto as formigas desmembravam e levavam a barata às peças através de um pequeno buraquinho. No dia seguinte, numa passagem de rotina, a polícia não deu com nada que pudesse aguçar a suspeição. As formigas tinham feito um trabalho excelente. 

Decidi tentar este método. Parti um bolacha e deixei um trilho de migalhas desde a janela até ao corpo. Vamos ver se dá certo. Era uma bela ajuda.

 

16/04/2016

 

Meu doce Diário,
Acordei hoje com a campainha. Lá estava alguém com um colchão e um candeeiro. Tivemos uma discussão, mas ele provou que os tinha encomendado durante a madrugada do dia dez. Acabei por aceitar e a ter de ficar com os produtos.
Fiquei mesmo sem detergente da roupa. Ao menos tenho toalhas lavadas.

Sei que queres saber sobre o corpo do homem que matei no escritório no outro dia. As formigas vieram! Para elas é um festim. Já me mandaram dezenas de postais pelo correio e, pelo menos, quatro convites para casamento, bem como um para uma coroação. Quando passo pelo escritório para ver como está, são sempre todas simpáticas. Porque não pensei logo nisto? Assim é que se desfaz das coisas. E sem se perder nada. Devem acabar de arrastar todas as partes e migalhas do corpo dentro de dois dias, pelo que vejo. Hoje já só tinha meio corpo e estavam a trabalhar num pulmão, enquanto outro esquadrão tentava manobrar parte do fígado pela pequena passagem ao pé da janela que as leva para a rua e para o seu formigueiro.

 

17/04/2016

 

Diário,

Pensamento engraçado: Se os carros usassem pepinos como combustível, sempre que fossemos abastecer era muito mais engraçado para todos. 

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