Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. I

    As sombras dançavam delirantes no pequeno quarto, expandindo-se à leva do vento e tomando de assalto todas as superfícies. A fraca luz da lua fazia com que os ramos das árvores se manifestassem ameaçadores, chicoteando o ar em redor da janela. Raquel estava sentada no chão, encostada entre a cama e a parede, aterrorizada com este bailado soluçante. Assustava-se com o escuro e temia as crepitantes mãos dos tentáculos sombrios que avançavam pelo espaço para a alcançar. Agarrada a um dinossauro de peluche balançava-se, tentando escapar àquela emboscada nocturna.

     Lançou um rápido olhar para o resto do quarto, só para ver que as sombras já tinham clamado mais soldados. Duas das suas bonecas pertenciam, agora, ao exército da noite. Agigantadas na parede oposta à que estava, tremeluziam e progrediam na busca por algo substancial, a única matéria viva daquele quarto, Raquel.

     Continuavam a mover-se com leveza e Raquel desabou num choro compulsivo. Ansiava pelo pai ou mãe, só eles sabiam como parar as sombras; mas ninguém veio, nunca vinha. Chorou até colapsar do cansaço, envolvida pela infantaria incorpórea das trevas.

 

***

 

     Luís espremia a caixa de sumo, tentando retirar dela todo o seu conteúdo. Este hábito sempre irritara a mulher, que não suportava o som sôfrego do sorver prolongado que Luís fazia sempre que bebia algo. Mas aqui não havia ninguém para se incomodar com ele, portanto Luís aproveitou todo o potencial da sua caixinha de sumo de maçã, até ficar sem mais um milímetro quadrado de espaço nos pulmões para o ar e expirar profusamente, deixando cair os ombros e rolando a cabeça contra o peito.

   Àquela hora não havia ninguém na copa e o silêncio imperava. Luís nunca gostara de comer junto a outras pessoas. Não gostava da observação que sentia, da conversa de circunstância, ou do jeito que cada um exibia ao comer. Preferia almoçar sozinho, podendo beber pela palhinha todo o seu sumo, até à caixa não passar de uma amálgama de cartão e alumínio desfigurada; revirar a sua carne guisada no prato sem ninguém lhe apontar que estava a brincar com a comida ou a querer saber porque debicava todas as ervilhas primeiro. Além disso, gostava de se manter afastado dos restantes empregados em situações sociais, ou quási sociais. Afinal, era o responsável e considerava que para haver uma boa liderança e respeito, teria que haver uma certa distância; as pessoas tinham de saber o seu lugar.

    Absorto nos seus pensamentos, levantou-se e dirigiu-se ao lava-loiça de inox que ficava ao pé do frigorífico, para passar o seu prato por água e arrumar o resto dos seus pertencentes na lancheira. Moveu-se morosamente, agastado pelo calor. O ar condicionado estava ligado, mas ali tinha de ser controlado e só dava para manter uma temperatura amena, enquanto ele preferia que estivesse mais fresco, muito mais fresco. Com as costas voltadas à porta, não deu pela aproximação tímida mas, ao mesmo tempo, assertiva de uma esbelta silhueta feminina.

     – Dr. Costa?

    Luís sobressaltou-se com aquela voz e deixou cair os talheres com estardalhaço no chão.

    – E-e-eu peço desculpa, não era minha intenção assustar-lhe. Pensei que me tinha ouvido a bater na porta… – disse a rapariga, com um ar de apreensão estampado no rosto.

   Ele virou-se de sorriso aberto e fez um gesto com a mão a retirar importância ao sucedido. Voltando a focar a realidade que estava posta de parte enquanto prosseguia com os seus afazeres, Luís foi em direcção à rapariga, de mão estendida.

    – Boa tarde. Dr. Luís Costa, muito prazer. Suponho que seja a Leonor, certo?

   – Boa tarde. O prazer é todo meu – disse, apertando a mão dele. – Sim, sou a Leonor Pureza, a apresentar-me ao serviço ­ – concluiu, arreganhando a boca num enorme sorriso.

    Luís recolheu as informações que lhe invadiam o cérebro, construindo o pequeno puzzle de uma primeira impressão. A miúda parecia-lhe simpática e ansiosa por começar a justificar a sua presença. Tinha um olhar curioso e determinado, mas algo mais vivia por trás daquela camada, não era tão superficial como o aspecto poderia dar a entender. Vestia um top com alças, cor-de-rosa, e uma saia curta que deixava à mostra umas pernas de tez clara, elegantes e bem torneadas; Luís não conseguiu evitar um olhar de relance e logo se arrependeu dos seus olhos o terem traído desta forma. O longo cabelo volumoso caía-lhe sobre os ombros, onde também repousava a alça de uma mochila recheada.

  – Espero que não haja problema de ter entrado assim vestida – disse Leonor, após notar o olhar cobiçoso que adornara a vista do bom doutor. – Quando me reuni com a Dra. Rita, dos recursos humanos, ela disse-me que podia vir vestida de forma casual e entrar pela porta de serviço, que aqui me iriam dar um uniforme e um espaço no balneário.

   – Ainda não lhe atribuíram um cacifo e um espaço no balneário? – Questionou Luís, perante o olhar impávido de Leonor. – Não fique assim, a culpa não é sua. Não há nenhum problema, já chamo alguém para lhe mostrar os cantos à casa. Depois pode ir até ao meu escritório, para nos conhecermos e eu lhe explicar o que vai fazer durante o seu estágio. Hoje será só um dia para reconhecimento, digamos assim. E claro que não há nenhum problema em vir assim vestida, é mesmo só para entrar e ir direita até ao balneário. Enquanto estiver aqui a estagiar, e dentro das instalações, irá usar sempre o uniforme que disponibilizamos. Terá sempre vários à disposição no seu cacifo e, acredite, irá usá-los todos, muitas vezes a ter de trocá-los durante o dia. Acidentes acontecem – arrematou Luís, com um pequeno riso.

    Leonor olhava intensamente para Luís e anuiu com um gesto de cabeça. Tinha assumido uma expressão mais dura e uma postura direita. Luís reparou nesta atitude e ficou curioso. Aquilo que tinha dito era só uma pequena piada, para descontrair e revelar que o trabalho não seria facilitado só por ela não passar de uma estagiária de Verão. Que iria trabalhar a sério e não só ficar a observar. Mas Luís percebeu que não tinha sido esse o motivo da aparente mudança de atitude. Ela simplesmente já se tinha apresentado e, agora, começara o seu serviço. Mostrava seriedade e respeito por ele e pelo trabalho. Este pensamento, e análise, confortou Luís e fê-lo sentir uma proximidade a Leonor, como que um certo orgulho paternal. Encarou com boas perspectivas o tempo que iria contar com a sua assistência.

 

     Contrariamente ao que tinha planeado no início, Luís delegou as suas tarefas para aquela tarde e serviu ele próprio de guia e orientador de Leonor. Levou-a aos balneários, onde ela se mudou e vestiu o uniforme e a bata, aos espaços comuns, às salas de tratamento, ao seu escritório, aos diferentes pisos e instalações do Hospício Padre Cabral Correia. Nunca gostara de estagiários, e já lhe tinham passado muitos pelas mãos, mas eram-lhe impingidos pela administração. Ao longo dos anos tinha ficado cada vez mais impaciente com os estagiários que lhe acompanhavam no Verão, mas esta, Leonor, era diferente. Sempre atenta, respeitadora, interessada. Não se deixava impressionar, era uma pessoa forte e com vontade de aprender. Andara toda a tarde a tomar notas num pequeno caderno e a inundá-lo com perguntas pertinentes. Luís continuava a sentir um orgulho crescente, uma vontade de a ajudar e aconselhar.

    A tarde passara a correr e o ponteiro do relógio aproximava-se velozmente das nove da noite, lá fora começava a escurecer. Já tinha passado da sua hora de saída, mas estava habituado a permanecer para lá do seu horário, normalmente a acabar papelada ou nalguma consulta que se prolongara. Leonor tinha pedido se podia continuar a acompanhá-lo até à sua saída, estava a gostar da experiência e do que estava a aprender. Enquanto Luís estava sentado à secretária, com Leonor sentada na outra ponta a aprender sobre todo o trabalho administrativo que também teria que realizar, Abel, um dos enfermeiros da noite, bateu efusivamente à porta.

    Falou apressadamente e com urgência. Soube que o Dr. Luís ainda se encontrava no edifício, então tinha vindo à sua procura. Uma das suas pacientes – a paciente mais famosa que alguma vez tinha tido e que, provavelmente, teria – estava a armar confusão. Como o doutor tinha dado ordens específicas para não lhe ser administrado nenhum calmante, nem nenhuma medida restritiva, sem antes ser consultado, viera a correr chamá-lo. Luís assentiu o chamamento e disse que já lá iria para resolver a situação.

     Luís fez sinal a Leonor para que esta lhe acompanhasse e começaram a atravessar o corredor.

     – Ouve bem, Leonor. Esta paciente não é como os outros, se bem que já tiveste contacto com vários casos difíceis neste dia – disse Luís, falava com calma e uma autoridade reforçada. – Sei bem que sabes de quem estou a falar, toda a gente sabe que esta paciente está ao meu cuidado há largos anos. Podes achar que não é nada de mais, mas não estás tão preparada para isto como pode parecer. É uma situação que não estás à espera e é difícil de se envolver. Peço que não interfiras e apenas observes com atenção. Lembra-te que, no fundo, não passa de uma criança assustada.

     Leonor não reagiu, manteve-se impávida perante o discurso de Luís, mas este notou um brilho diferente que lhe tripudiava nos olhos, como que uma curiosidade mórbida quando encontramos pela primeira vez o cadáver de um pássaro morto na estrada.

    Chegaram ao destino, numa ala que Leonor não tinha visitado antes, e deram com Abel ladeado por mais duas enfermeiras e de seringa a postos. A voar pela porta entreaberta, Leonor foi atingida pelo som de um choro tão terrível que mais se assemelhava a um grunhido de um animal ferido.

     – Guarde a seringa e afastem-se, se for preciso chamo por vós – ordenou Luís. – Leonor, entre atrás de mim e não faça nada.

     Avançaram os dois, cautelosos, para o interior do quarto.

    – Shhh, shh. Está tudo bem, Raquelinha, estou aqui. Está tudo bem – Luís falava num sussurro meigo e gentil.

    Leonor sabia o que ia encontrar, tal como Luís lhe dissera. E, tal como Luís lhe dissera, não estava preparada para a visão que se revelou perante o seu olhar. Entraram num quarto do hospício, igual a todos os outros, mas marcado pelo tempo. Era como entrar noutra dimensão, em que a porta funcionava como portal mágico. Aquele quarto tinha uma atmosfera especial.

    No centro de um quarto infantil, muito mais infantil que todos os quartos da ala das crianças, estava uma mulher. Idosa e com aspecto disso. Leonor sabia que aquela mulher, Raquel Adarga, tinha setenta e seis anos. Mas, como já sabia e Luís lhe avisara, era uma criança. Uma visão que lhe esmagava o coração e impregnava a retina, uma idosa sentada no chão, rodeada de brinquedos, desde bonecas a lápis de cera e livros para colorir, berrava copiosamente num sofrimento desmedido. A mente de uma criança de seis anos aprisionada num corpo apodrecido, com pele flácida e descaída, olhos enrugados cheios de lágrimas. Leonor deixou cair o caderno, sem reacção do corpo. Raquel, Raquelinha como era tratada por Luís, que era visto como o pai por aquela mente inocente, começava a acalmar-se, sendo envolvida e aninhada nos braços daquele homem. Aos soluços e com um discurso balbuciado e pouco coerente, contou a sua versão dos acontecimentos. Enquanto era embalada nos braços de Luís, Raquel descrevia as sombras que lhe tentaram consumir na noite anterior e o terror que sentia, o medo que tinha em fechar os olhos, de novo, naquele quarto.

    Leonor continuou sem reacção durante os poucos minutos que passou naquele quarto, ao ver Luís a assegurar Raquel de que as persianas tinham sido arranjadas e que nada a podia magoar ali dentro. As sombras não voltariam para a acossar, podia pegar no seu peluche e voltar para a cama. Leonor sentia-se dividida emocionalmente. Por um lado a enorme compaixão que sentia por aquela mulher, por outro, o conhecimento que tinha daquilo que ela tinha feito, e a dúvida que persistia e resistia à passagem do tempo.

    Já sabia do caso de Raquel antes de se mudar para aquela cidade para frequentar o primeiro ano de medicina, mas, em conversa com os novos amigos, tinha aprofundado o conhecimento sobre o que se passara há tantos anos. Era o caso mais conhecido daquela cidade, e ainda mais falado e discutido entre os estudantes de medicina, movidos pela curiosidade enfermiça própria da idade.

     Raquel Adarga tinha vivido vinte e três anos perfeitamente normais até àquela funesta noite de Fevereiro. Ao voltar a casa de um turno nocturno no restaurante, Raquel tinha sido violentamente agredida e violada por dois homens. Além de todas as feridas físicas e psicológicas que resultaram daquele nefasto acto, a maior chaga daquela noite chegou cerca de nove meses depois. Contava-se que ainda tentara abortar, por mais que uma vez, mas tinha sido sempre mal sucedida. Perante insistência da mãe, Raquel foi internada no Hospício Padre Cabral Correia até concluir a gravidez, por medo que se magoasse a si e ao bebé. Liliana Adarga estava determinada a criar o neto e cuidar da filha, inundá-los de amor até expurgar qualquer réstia da vil penitência que tinha açoitado a sua família.

     Foi precisamente isso que aconteceu quando nasceu o pequeno Álvaro. Não só a sua própria família, mas toda a comunidade se afeiçoou ao bebé e contribuiu para ultrapassarem a situação. Só que a cada dia que passava, Raquel sentia-se pior. Uma inveja e raiva crescentes manifestavam-se e apoderavam-se do seu pensamento, um ciúme incontrolável que desencadeou diversas brigas. Não suportava a criança e toda a atenção que recebia, não aguentava ser ignorada e, na mente dela, culpada pelo ocorrido. Tornou-se de tal forma insustentável, que já nem conseguia olhar na direcção de qualquer bebé ou criança, sentia um desprezo incomensurável.

     Trinta crianças morreram naquela tarde de domingo, sob o olhar atento de Deus, às portas da igreja e pelas mãos de Raquel. Dizem que veneno é a arma de uma mulher, e, pelo menos naquele dia, foi mesmo. Uma fornada inteira de bolachas impregnada com veneno, servida num convívio dominical. O próprio filho tinha sido o primeiro a pôr uma bolacha na boca, seguindo-se mais trinta crianças que comeram tudo sem deixar rasto de qualquer migalha. Todas as crianças colapsaram e não houve nada que pudesse ter sido feito, toda uma comunidade reduzida à calamidade provocada por Raquel. Álvaro fora a única criança a sobreviver, dado que não comeu a bolacha, mas apenas a teve na boca uns instantes.

     Raquel fora encontrada num baloiço no jardim adjacente à igreja. Frágil, olhar vidrado e candura estatelada no rosto. Chorou sem parar enquanto foi levada pela polícia, chamando pela mãe que se recusava olhar na sua direcção.

     O restante da família de Raquel saiu da cidade após o julgamento, até hoje não se sabia nada sobre o que lhes tinha acontecido. Leonor, desde que descobrira o caso num documentário visto na televisão, ficara fascinada e decidida a enveredar pela psiquiatria.

     Vários médicos especialistas analisaram Raquel, e todos concluíram que não estava a fingir. O seu acto de maldade tinha desencadeado uma qualquer perturbação dissociativa, como que um mecanismo de defesa, entrando a sua psique numa fantasia e ficando retida com a mente de uma criança. Para todos os efeitos, Raquel não passava de uma criança de seis anos de idade, que controlava, desajeitadamente, um corpo que há muito lhe tinha ultrapassado. Procurava o conforto, o amor que as crianças recebiam, queria ser como elas, queria esquecer, e o seu cérebro encarregou-se de lhe conceder o seu desejo. As dúvidas e incertezas pairavam até hoje, mas há muito que deixara de importar. Desde esse dia que tinha estado internada naquele hospital.

   Leonor não tinha dúvidas, depois de presenciar o que presenciou aquela noite, a debilidade de uma idosa com o olhar honesto e medo irracional de uma criança, a necessidade de afecto e cuidado. Assistiu a Luís deitar Raquel, mostrar-lhe a janela e persianas fechadas e aconchegá-la com os lençóis. Beijou-lhe a testa ao de leve e encaminhou-se para a porta, com um ar abatido. Passou por Leonor que continuava fixada naquela mulher. Não conseguia dissociar o horror que ela tinha cometido, mas sentia uma enorme compaixão, uma dor que nem ela compreendia. Durante aqueles cinco segundos que ficou sozinha à porta do quarto, o olhar de Raquel pousou no dela e foi possível desmistificar um sorriso tímido, mesmo ao jeito de uma criança envergonhada.

    Luís chamou por Leonor e pediu-lhe para fechar e trancar a porta. Leonor cumpriu o pedido, mas não estava focada em nada do que fazia, movia-se de forma displicente e atabalhoada, claramente afectada pelo que tinha visto. Sentia uma estranha conexão àquela mulher, e, a juntar à dor que lhe provocava, uma compreensão pelo seu sentimento.

    Despertou para a realidade ao som da voz de Luís, que ultimava instruções para os enfermeiros. Dirigiu-se a ele, cabisbaixa, para se despedir deste primeiro dia.

   – Não me faça arrepender de lhe ter trazido aqui – atirou Luís, com uma voz cansada. – Os estagiários não me costumam acompanhar a esta ala do hospício. Pensei que você podia aguentar e ser séria em relação ao assunto. Não comente o estado dos pacientes, em especial este. Todos os anos algum jornalista lembra-se de Raquel Adarga e tenta arrancar pormenores a quem acha que os tem. Espero que não me desiluda, Leonor, vejo muito potencial em si.

    A sua voz soava como uma ordem e as suas palavras fizeram Leonor corar e gelar ao mesmo tempo. Não conseguiu encarar Luís de frente, desviando o olhar para o vazio.

    Acompanhou Luís até ao seu escritório para recolher as suas coisas. Não trocaram mais nenhuma palavra, um entendimento silencioso tinha sido alcançado e concordado entre eles. Quando já se preparava para sair, perguntou:

   – Porque é que ela está isolada? Porque não está junto com as outras crianças? Ou com os adultos? Duvido que nesta altura alguém se importe, ou que o tribunal ainda mande alguma coisa. Não me parece que seja um perigo para alguém.

    – É complicado. É muito mais do que me apetece falar agora, mas posso dizer-te que continua separada pela sua segurança, e dos outros. Parecendo que não, continua a ser um perigo. Não pode ver crianças, não as compreende e desconfia delas. Tens de perceber que, para ela, Raquel é uma criança. E o seu aspecto é, para si, o aspecto de uma criança. Quando vê uma criança... verdadeira, digamos assim, entra num estado de pânico. Julga-as impostoras, artificiais. Já tivemos casos, há alguns anos, em que tentamos essa aproximação, mas Raquel atacou-as com tudo o que podia. Abriu o sobrolho a um dos meninos que lá estavam, após arremessar um dos seus brinquedos.

   Leonor anuiu com a cabeça e não falou. Compreendia a situação. A dissociação que Raquel sofrera, minada pelo ciúme e falta de atenção, transformara-a numa criança. E uma criança que não controlava o próprio corpo, que não respondia como esperava. Uma criança que não tinha iguais e que requeria atenção e cuidados constantes, ainda mais dependente que uma verdadeira criança de seis anos de idade. Aquela mulher que se assustava com sombras e com o escuro, com tudo o que não era normal e não compreendia.

    Luís despediu-se de Leonor no parque de estacionamento, após a recusa desta em aceitar a sua boleia. O autocarro passava mesmo à porta do seu apartamento e a zona era segura e de viagem rápida. Do carro, viu Leonor entrar para o autocarro e seguir o seu caminho, enquanto ligava o motor do seu automóvel e se animava com a ideia de, a esta hora, a mulher já ter jantado e ele poder comer sozinho.

 

***

 

    Não passara assim tanto tempo desde que Raquel tinha adormecido. Não compreendia porquê, mas nunca conseguia dormir por um grande período de tempo consecutivo. Acordou a meio da noite e procurou instintivamente o seu dinossauro de peluche. Sentia-se confortável e mais segura sempre que o abraçava. Deu com ele caído ao pé da cama e tentou apanhá-lo. Raquel tinha a mente de uma criança instável, mas um corpo fustigado pelo passar dos anos. Estes pequenos exercícios de locomoção tornavam-se difíceis, principalmente quando o corpo não acompanhava a agilidade da mente. Ao tentar chegar ao dinossauro, deu com algo que não esperava. O pai tinha-lhe assegurado que a escuridão não levitava para ela esta noite, mas, no entanto, lá estava ela, a estender os seus longos tentáculos que já acercavam os pés da cama. 

     Desta vez Raquel não paralisou com o medo. A acompanhar o braço das sombras, revelava-se uma língua de luz que inundava o quarto e lhe projectava um teatro sombrio na parede por trás dela. Raquel não reparou no espectáculo teatral que as sombras dos seus brinquedos realizavam, porque, pela primeira vez, aquela fresta de luz provinha de uma porta entreaberta. Agarrou o seu peluche pelo caminho e caminhou para a porta. Algo tinha acontecido, algo que a sua mente infantil não conhecia. O que sabia era que o seu mundo estava a crescer e havia um novo espaço para explorar. um espaço em que a luz abundava e as sombras não lhe podiam dominar. 

     A balbuciar, de peluche numa mão e o polegar da outra na boca, uma mente de seis anos a comandar o corpo rangente e pesaroso de uma velha criminosa saiu para o exterior do quarto pela primeira vez desde que se lembrava. Não compreendia o que via, mas avançou.