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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Deixem-me falar-vos dos Óscares...

A noite mais glamourosa do ano está a chegar e eu estou em pulgas! Sempre adorei os Óscares, é a noite pela qual mais anseio. Fora isso, só uma noite que vá beber vinho. Todas as noites, portanto. Mas isso é assunto para outro dia.

 

Os Óscares têm uma grande tradição e é claro que não os acompanho desde o princípio. A minha história com os Óscares começou a escrever-se desde que vim morar para esta casa, há 6 anos atrás. Já vi imensos vídeos, ouvi as histórias e delicio-me com os momentos inesperados que aconteceram. Toda a cerimónia tem um encanto especial, quer queiram quer não, e é difícil não ser contagiado pela emoção. Mal posso esperar a noite de domingo para, uma vez mais, participar desta grandiosa cerimónia. Alimentando toda esta expectativa, este ano vou ter a honra de apresentar o vencedor numa categoria!

 

Eu sei, eu sei, alguns de vós já devem estar com alguma inveja, mas isto de participar nos Óscares não é para qualquer um, é só para quem pode.

Já agora, só para esclarecer, eu estou a falar dos Óscares, não dos “Oscars”, ou “Academy Awards”, essa coisa sobre filmes que não tem relevância nenhuma. Falo mesmo dos Óscares, os prémios criados pelo grande Óscar Lima, meu vizinho do 6º direito, para premiar os condóminos deste prédio.

 

Os Óscares são a lou-cu-ra! Assim que forem 21 horas de domingo, vamos todos até ao 6º andar, para casa do Óscar, onde historicamente se realiza a cerimónia. Mal se abrem as portas do elevador já se começa a perceber que será uma noite diferente. Um lindo tapete vermelho adorna a porta de entrada (dizem que é o mesmo tapete pisado por um dos meus heróis – o grande Chico Nelo – responsável pelo abaixo assinado de 2002, que determinou que todas as persianas tinham de ser verdes e pelo movimento “Sim ao corrimão, sem apoio é que não!”, que levou à instalação de corrimãos em todos os lances de escadas). Perto da porta vai estar a nossa fotógrafa. Já andam por aí uns zunzuns que este ano vamos ter roupa da Zara, da H&M, da Primark, mas também da Guess, da Timberland, Ralph Lauren e até da Burberry!  A fotógrafa de serviço vai ser a nossa Márcia Coto, tão crescida que está com os seus 13 anos. Ainda por cima a mãe dela trabalha numa revista “cor-de-rosa”, por isso pode ser que haja divulgação das fotos. Sim, a mãe dela é só a recepcionista do prédio onde está a redacção, mas mesmo assim…

 

A cerimónia vai ser conduzida pelo grande Óscar, como é habitual. Há rumores de que vai haver uma actuação de malabarismo, feita pelos filhos da Clara do 3º direito, e também um número de ilusionismo do Afonso do 8º esquerdo. Como sempre, é de esperar algumas surpresas, como no ano passado, em que a Cristina do 1º esquerdo nos presenteou a todos com a sua dança do ventre. Pelo menos foi o que ela lhe chamou, apesar daquilo para mim ter sido só uma maneira de disfarçar que estava a entrar em trabalho de parto.

 

Quanto aos prémios em si, não sei bem o que esperar. Está tudo tão renhido este ano. A começar logo pelas nomeações: depois da controvérsia que foi o #Oscars So White, este ano temos nomeado para “Melhor novo condómino” um casal inter-racial. As más-línguas dizem que o Tiago só se casou com a Joana por ela ser africana e assim ganhar o prémio, aproveitando-se da polémica e dos votos por simpatia. Eu sou contra esta tese, até porque eles já estão casados há anos e não sabiam da existência destes prémios até se mudarem para aqui, mas uma campanha destas é difícil de travar. Mesmo assim acho que ganham, os outros nomeados são a Júlia e a Júlia, do 2º direito e o Marco do 7º esquerdo. A Júlia e a Júlia são um casal simpático, mas aquele pormenor de terem o mesmo nome confunde as pessoas e não acham assim muita graça; do Marco diz-se que tem um mês de quotas em atraso e mesmo que isso seja mentira é um daqueles rumores com que é difícil ganhar votos.

Temos também o Óscar para melhor banda sonora. Aqui está mesmo renhido e eu estou nomeado! Sinceramente, só o estar nomeado já é um prémio por si só, é uma honra ter o meu trabalho reconhecido e valorizado. Vamos ver se consigo levar o galardão também. Estou nomeado pelo meu silêncio. Sim, o meu silêncio, de ser o condómino mais silencioso que aqui habita, ao ponto de pensarem que este apartamento está desocupado e tudo. Nestas circunstâncias, de habitação num prédio, há quem diga que o silêncio é mesmo a melhor banda sonora. Os outros nomeados são as obras do 2º esquerdo, que fazem uma manhã normal parecer um ataque aéreo durante a segunda guerra mundial, e a Diana, do 9º direito, que mora no último andar e que se faz ouvir perfeitamente sempre que tem sexo, com os seus gritos de êxtase a ecoarem ao longo de todo o prédio. Está tudo muito aberto. A categoria, não a Diana, isso não faço ideia de como está.

 

Muitos outros prémios serão entregues ao longo da noite, como o de “Melhor Contribuidor Externo”, em que estão nomeadas as senhoras da limpeza, o carteiro e senhora que trata do lixo. Acho que esta última será a vencedora. O carteiro não tem falhado, mas já conquistou um grande número de Óscares e penso que a academia (o Óscar) quer atribuir o prémio a sangue novo, e as senhoras da limpeza têm estado um bocado desleixadas.

Também teremos um momento In memoriam, como é normal nestas coisas. Será aqui que será prestada homenagem à grande Magda, do 4º direito, falecida em Janeiro de 2016. Encontrada em Outubro de 2016, quando o enjoo foi suficiente para alarmar o Rui do 4º esquerdo. Teve de vir a polícia, INEM e os bombeiros. Foram encontrar a Magda, ou o que restava da Magda, morta na banheira, e uma dezena de ratos muito bem alimentados que agora tomavam conta da casa. É uma pena, a Magda era boa pessoa, via nela muito potencial para futura vencedor do galardão mais cobiçado (“Melhor Condómino”), num futuro próximo. Parece é que, afinal, não era muito asseada: depois de toda a investigação, concluiu-se que os ratos já lá estavam enquanto a Magda era viva e que, inclusive, foram eles que a mataram, começando por lhe comer os olhos.

 

E é isto, não vos vou estar a maçar mais, nem a provocar-vos mais inveja. É claro que para o final ficará guardado o grande prémio, o de “Melhor Condómino”, e este ano é mesmo impossível prever quem ganhará.

Só espero é que não haja polémicas como há 2 anos, quando o António do 6º esquerdo ganhou o prémio e foi logo acusado de ter comprado votos com queques caseiros, bem como – muito mais grave –, de não assumir as culpas da infiltração que afectava o 5º esquerdo... Quando toda a gente sabe que a culpa é mesmo dele e que instalou um ar-condicionado sem pedir autorização ao condomínio antes! Mas pronto, não interessa, são águas passadas…

 

Que venham depressa, mal posso esperar pelos Óscares!

A coisa mais difícil da minha vida

Vivo no limite, no fio da navalha, à beira do abismo.  

 

Sou uma pessoa aventureira, preciso adrenalina, requeiro dopamina, sou viciado em cafeína, mas não me meto na metanfetamina, fico-me pela endorfina a dar com um pau.

Corro riscos e não me deixo abater. Vivo a vida ao máximo, um dia de cada vez, nunca estou de pé atrás, nem que a vaca tussa. Hakuna Matata, Carpe diem.

Ando de BMX, BTT e skate, tudo ao mesmo tempo. Faço escalada, slide e rappel, de olhos fechados e com uma perna às costas. Surf, kitesurf mas também windsurf, com o mesmo vento com que a minha asa é delta. Passeio de parapente, salto de aviões, desafio avalanches. No paintball sou general.

Ando sem guarda-chuva, com roupa por engomar, com a camisa por fora das calças. Questiono crenças comuns e populares, julgo livros pela capa e a capa pelos livros, derramo leite e não choro, aconselho-me na noite.

Faço trinta por uma linha, procuro agulhas num palheiro, passo tudo a pente fino, separo o trigo do joio. Não fico a ver navios, atiro-me de cabeça, ponho lanças em África, vou até ao cu de Judas e penteio macacos.

 

Tenho pêlo na venta, ponho as barbas de molho, as mãos à obra e os pontos nos is.

Sou advogado do diabo, coloco as mãos no fogo, ponho o dedo na ferida, as mãos na massa. Arregaço as mangas, parto a loiça toda. Levanto a cabeça, abro os olhos, acerto agulhas e vai tudo a eito. Sou bom de boca, tenho a pulga atrás da orelha, as costas quentes e quebro o gelo.

Vou com a corda toda, vou a fundo, de pé firme, ando na linha, agarro com unhas e dentes, movo montanhas, dou a volta por cima, ponho a bola para a frente e deixo a bola rolar. Vou à luta, deito lenha na fogueira, arrisco a pele, tenho sangue na guelra.

Agarro a vida pelos cornos, grito a plenos pulmões. Tenho a cabeça nas nuvens e os pés bem assentes no chão. Tenho as costas largas e o peito feito, faço das tripas coração.

Lanço os dados, desafio a morte, tenho a faca e o queijo na mão.

 

 Vivo no limite, no fio da navalha, à beira do abismo.  

 

No entanto, não há nada que seja mais difícil, nada que custe mais e me derrote tão facilmente que levantar-me de manhã, sempre que toca o despertador para ir trabalhar. Há coisas mesmo difíceis de fazer.

A Espuma dos Dias

Eu compreendo que filmes e séries de televisão, até mesmo anúncios publicitários, são produtos de ficção e, como tal, requerem um certo nível de suspension of disbelief. Agora, há uma coisa que me tira do sério e arruína um qualquer produto de ficção que se propõe a entreter-me: pessoas a lavar os dentes.

 

Não me interpretem mal, sou a favor da escovagem dos dentes. Não é esse o ponto que me chateia, nada contra a promoção de uma prática saudável de higiene. E também não é nada contra o acto em si ser mostrado. A minha queixa deve-se ao facto de ser retratado de forma extremamente irreal, como se de algo delicado e célere se tratasse. 

 

Para começar, escovar os dentes já é um acto meio estranho por si só. Não há nenhuma outra parte do corpo que requeira tanta atenção específica para ser lavada, nem que envolva uma recomendação de tempo. Depois, é algo tão bruto e animalesco. É pegar numa escova e encavá-la dentro da boca e esfregar e esfregar, rodar, mudar de direcção, esfregar outra vez. É como lavar umas jantes, ou uma mancha de humidade na parede. É um tal esfregar e passar água e voltar a passar uma escova, sempre a esfregar como se os dentes fossem uma raspadinha e nós com pressa de ganhar uns trocos. Lavar e esfregar uma parte que está no interior do corpo. A única que merece este tratamento. Pelo menos diariamente...

Mais do que um fight club, eu formaria um clube de escovagem dental para descarregar as frustrações da vida.

 

Depois, onde é que está a espuma!? É tudo tão limpinho a lavar os dentes na televisão ou cinema, um acto tão gracioso e querido, e sem um único vislumbre de espuma que seja! Sejamos realistas. Eu uso a pasta e escovo os dentes e faço uma esterqueira digna de se ver. Às vezes mais parece que estou a tentar imitar o pai natal. Babo-me que mais parece que me está a dar um avc. E escorre espuma pelos cantos da boca e pela escova e mão, e cuspo para a bacia. Lavar a língua é uma luta diária contra a bulimia.

Qual ciência qual quê, a razão pela qual acredito na evolução das espécies é devido à lavagem de dentes. Nunca estou mais próximo de um macaco que naquela altura.

Isto é bonito de se ver? Não, mas é real e nunca é retratado. Algo tão mundano e sempre mal representado

 

E nos filmes/séries nunca bochecham! Devem pensar que como não fizeram espuma nenhuma nem têm que passar água. No máximo cospem uma coisa qualquer, bebem um copinho de água para disfarçar e vão embora. Errado. Bochechar bem com água e repetir. E lavar a bacia a seguir, porque também não o fazem e devem ficar com aquilo tudo empastado durante anos. Se calhar todas as bacias em filmes/séries são apenas de inox, parecem-se é com porcelana branca devido às centenas de camadas de pasta seca acumulada. Se fosse assim na realidade já não havia um único casamento, descambava tudo em divórcio. No duche usam champô e depois passam água abundantemente para o retirar, mas os dentes lava-se, cospe-se e está a andar. Então passem a usar champô e abarnarem-se que nem cães.

 

Não deve haver nenhum filme que seja aprovado por dentistas. Todos escolhem demonstrar este acto de higiene, mas todos perpetuam uma má representação e estereótipos irreais de um comportamento que nunca conseguimos alcançar, uma banalização de algo que devia ter muito mais importância.

Anseio pelo dia que verei no cartaz de um filme "Aprovado por 3 em cada 4 dentistas". 

 

Ao menos que façam espuma, amigos. Façam espuma!

Propostas Revolucionárias

As notícias sobre uma descriminalização, até certo ponto e mediante certos parâmetros, dos casos de agressão familiar na Rússia têm gerado muita controvérsia. Passando a ser uma infracção administrativa, punida com multa e apenas alguns dias de prisão ou trabalho comunitário, considera-se que porá em causa a protecção contra a violência doméstica. Ninguém fica indiferente a tal proposta, que trivializa um acto de violência e retira responsabilidade criminal desde que as agressões não sejam graves e as marcas não passem de arranhões ou hematomas, por exemplo, e desde que seja um caso isolado e não um acto recorrente.

 

Mais do que qualquer comentário sobre esta medida há que retirar ideias e capitalizar neste momento. Com informações que fui apurando junto das minhas fontes estou em condições de adiantar certas propostas que serão discutidas na assembleia da república à boleia das ideias russas.

 

Fonte de informação confidencial

Uma das minhas fontes, junto da qual obtive estas informações

 

  • Uma vez por ano será permitido trincar a ponta do dedo de um fiscal da emel (ou de alguém com responsabilidade equivalente) na porta do carro, mesmo que não haja qualquer motivo para tal. Se houver motivo que o justifique, pode esmagar até quatro dedos de uma vez, desde que não os parta;
  • De dois em dois anos será permitido, com reduzidas contrapartidas, a todos os cidadãos roubar uma única coisa. Se o valor do furto ultrapassar os 2000€ o estado tem direito a 35% do seu valor;
  • Agredir um árbitro de futebol por ano, desde que não o deixe incapacitado de exercer a sua função;
  • Poderá optar entre passar um sinal vermelho a cada seis meses ou circular em excesso de velocidade uma vez a cada 18 meses sem nenhuma penalização legal;
  • Crimes de ódio passam a ser aceites se não passarem de um acto isolado num período de um ano e que não causem mazelas psicológicas à vítima por um período superior a três meses;
  • Ser apanhado a copiar ou com cábulas em algum exame deixará de ser motivo para penalização, caso seja a primeira vez no ano lectivo e não um acto recorrente;
  • Se não passar de um acto isolado num espaço de três anos a violação é descriminalizada, desde que não exceda os 75 segundos de duração nem deixe marcas físicas;
  • Mesmo se se provar ser acto recorrente, fazer batota no monopólio será permitido caso contribua para um fim mais rápido do jogo.

 

Devaneios Irrelevantes da Imaginação

Tenho estado a tentar corrigir a minha falta de participação no blog, a tentar voltar, mas não tem sido fácil. Sei que isto não interessa a ninguém, mas não deixa de ser um ponto de honra. Mas então porque é que não o tenho feito, se o quero assim tanto? Não é propriamente por falta de conteúdo, porque há sempre alguma tolice a passear-me pela cabeça capaz de me entreter; podia dizer que a vida se meteu no caminho, que era devido ao trabalho, a isto ou aquilo, mas a verdade é que não é nada disso.

Quero fazê-lo, tenho ideias, tenho vontade de escrever alguma coisa, tenho tempo… No entanto, não tenho produzido nada. O problema é que acontece sempre alguma coisa quando tento escrever.

 

Sento-me confortavelmente, com o computador à frente e a secretária devidamente organizada de forma obsessiva compulsiva, com as distâncias entre as canetas e o bloco de notas cuidadosamente calculadas, alguns papéis soltos a dar a impressão de um projecto em curso e uma iluminação que me permite a melhor fotografia inspiradora que já passou pelo instagram.

 

Os dedos começam a dançar pelo teclado e dou por mim a perguntar-me o porquê de isso acontecer. Porque é que os meus dedos estão a dançar uma valsa por cima do teclado, não faz sentido nenhum. Assim nunca mais começo a escrever. Continuo a observar, fascinado, enquanto as minhas mãos se entrelaçam num fabuloso tango de teatro dedal. Do nada, a mão esquerda cai desamparada. Clara sabotagem por parte da mão direita, que assim custou o primeiro lugar neste concurso de dança manual. Todas as minhas canetas olham incrédulas para esta falha, e no seu papel de juízes dão uma nota baixíssima. As mãos afastam-se do teclado, abatidas e distantes uma vez mais. A mão esquerda não se contém e começa um ataque feroz à mão direita, metendo unhas ao barulho e tudo. A direita bem se tenta defender, mas a ferocidade da esquerda não amansa. Acusações de sabotagem começam a ser proferidas, as canetas já vieram todas ver o que se passava, eu contínuo fascinado, o cachecol pendurado nas costas da cadeira começa a meter-se, sem dúvida a ver que escândalo era este que não o deixava repousar calmamente. Descobre-se que a mão direita estava cansada de ter de fazer a grande maioria do trabalho, estoirada do seu papel dominante nesta relação e a incriminar a mão esquerda de ser uma mandriona, que nem tem jeito para nenhuma actividade. Todo este alvoroço culmina na revelação que a mão direita mantém uma relação amorosa duradoura com outra parte do meu corpo, órgão que a mão esquerda tão bem conhece mas nunca foi muito próxima. Saltam as tampas às canetas, o cachecol recolhe-se nas costas da cadeira e eu acabo por separar as mãos e pôr fim ao espectáculo, que isto de me meter em assuntos pessoais não é para mim.

 

Passada esta hora e meia, sem que nada para o blog tivesse sido criado, olho para o computador determinado a escrever aquilo que queria. É nesse momento que reparo na estranha mensagem que ocupa todo o ecrã, num fundo vermelho berrante umas letras garrafais brancas ferem-me a visão. Pior que isso é a sua mensagem:

 

Vasco: és a causa das vitórias do senhor Trump.

 

As pernas tremem-me e só não caio porque estou sentado. O meu computador, alvo de algum ataque informático para extorsão, talvez só para ameaça, mostra que alguém sabe a verdade, que alguém conhece o meu maior segredo. Aumenta o meu nervosismo e paranóia, sinto o batimento cardíaco na língua e fico intrigado: será que estou mesmo a sentir o batimento cardíaco na língua? Ponho os dedos da mão esquerda na língua e tento encontrá-lo. Pressiono e percorro toda a língua, mas nunca consigo realmente sentir o batimento cardíaco ali. Começo a ficar preocupado, será que estou morto? Levanto-me num salto e abro a porta do guarda-roupa para me ver ao espelho que tem numa das portas. Qual não é o meu espanto quando não vejo o meu reflexo! Já desconfiava, depois de não conseguir sentir o batimento cardíaco na língua. Não passo de um fantasma. Não sei quando morri, se sempre estive morto todos estes anos. É ao mesmo tempo que estou a colocar toda a minha existência em causa que volto a ficar demasiado ansioso e a sentir que estou com um ritmo cardíaco muito acelerado. Caio em mim e na estupidez do que estou a fazer, apercebendo-me que estava a tentar encontrar pulsação na língua. Olho com atenção para a porta do guarda-roupa e continuo sem ver o meu reflexo, mas agora percebo porquê. Não é este o guarda-roupa que tem o espelho na porta, é o outro. Dou uma boa gargalhada e preparo-me para voltar à minha vida quando me lembro do que realmente se estava a passar. A mensagem no meu computador! Alguém sabia a verdade e era preciso resolver este assunto de uma vez por todas. Esta informação não podia ser divulgada.

 

Olho com atenção para a frase que me enche o ecrã e de repente tudo faz sentido. E se vocês olharem com atenção também vão perceber. É uma mensagem codificada, criada com aquele conteúdo chocante para me fazer despertar. É muito fácil de perceber, é só reordenar as letras todas daquela frase e ficamos com a mensagem verdadeira:

 

Vasco, és cá um parvo. Tu estás só a sonhar.

DRDII

 

Tudo não passou de uma forma do meu cérebro me trazer de volta à realidade, de me despertar destas fantasias inconsequentes. DRDII (Departamento Real dos Devaneios Irrelevantes da Imaginação) é a sigla dessa secção do meu cérebro, como todos sabemos.

 

Assim que percebo a verdadeira mensagem acordo para o mundo. Nada disto se passou, continuo sentado à minha secretária com o editor de texto aberto e em branco. Finalmente despertei desta fantasia, mais uma de muitas. Agora estou demasiado alterado para escrever o que quer que seja para o blog, hei-de fazê-lo noutra altura.

 

A sério, eu bem que tento, mas continuam a acontecer coisas destas. Assim fica difícil.

Não subestimem as superstições

Podem pensar já não ser muito relevante, tendo em conta que a sexta-feira 13 já passou, mas posso-vos garantir que mais virão e é preciso ter cuidado. Outubro não tarda aí e não quero que passem pelo mesmo que eu; que a minha experiência vos sirva de aviso: não brinquem com as superstições.

 

Esta sexta-feira começou como outro dia qualquer na minha vida: com um grande bacanal na minha cama, que eu gosto de fazer exercício logo pela manhã e nada melhor que uma orgiazinha para pôr os músculos a trabalhar. Ok, esta parte é mentira, desculpem. Uma das minhas resoluções de ano novo era a de não mentir tanto e já o estava a fazer. O dia começou normalmente e enquanto me arranjava lembrei-me que era sexta-feira 13.

Eu nunca fui uma pessoa supersticiosa em relação a nada, não passa tudo de uma grande tolice para mim. Ao preparar-me para sair de casa, notei no guarda-chuva que estava ao pé da porta. Com este espírito jocoso que me é inato, decidi achincalhar o universo como forma de rebeldia e abrir o guarda-chuva dentro de casa. Num dos dias mais temidos do ano ainda lhe ia acrescentar outra prática supersticiosa associada a má sorte. Sim, sou uma pessoa corajosa; ou imprudente, como vão perceber.

 

Abro o guarda-chuva sem pensar em nada mais e dou com ele contra o lustre, que se solta do tecto e cai-me em cima. Isto só por si não é muito mau, porque nunca gostei muito daquele lustre, mas não deixa de ser uma chatice, até porque um pedaço dele ficou-me espetado no ombro. Comecei a ficar apreensivo com este azar causado por ter aberto um guarda-chuva dentro de casa. Querem ver que as superstições são para ser levadas a sério? Fui até ao espelho para ver melhor a minha nova ferida no ombro e tropeço no guarda-chuva que tinha ficado caído no chão e vou de cara contra o espelho. Ficou tudo desfeito, cara e espelho por igual. Ainda tentei ver em que estado estava, a olhar o meu reflexo nos resquícios de vidro partido, sabendo que estava a incorrer em mais uma prática nociva, no que à superstição diz respeito. Estava, além de magoado, a ficar bastante assustado. Não me devia ter metido com uma sexta-feira 13, era uma batalha que não podia vencer.

Ferido e ensanguentado saio de casa, arrastando comigo todo o azar que imprudentemente tinha contraído. Azar esse que se fez notar na figura de um elevador avariado. Ao chegar ao último lance de escadas vejo que está ocupado por um escadote e que a única maneira de passar seria por baixo dele. O senhor que lá estava a arranjar alguma coisa (não sei o quê, não conseguia ver bem por força de ter vidros espetados nos olhos) recusou-se a descer para me facilitar passagem e disse-me para não ser medricas e passar por ali. Nesta altura já eu estava tão assustado que nem estranhei ele nem se ter importado com o meu estado de prisioneiro de guerra escapulido. Passei por baixo do escadote e fui bater três vezes com o punho contra a madeira, para ver se anulava o efeito do que tinha acabado de fazer; já estava por tudo a esta hora. Só cheguei a bater uma vez. Não me tinha apercebido que aquele bocado de madeira que ali estava servia de apoio à escada. Não vi muito bem como tudo se passou, mas sei que o escadote caiu e o senhor deve ter aterrado mal. Tentei ajudá-lo, mas ele já tinha morrido. Pescoço partido. As minhas impressões digitais estavam por todo o lado. Alguém iria aparecer a qualquer momento. Eu seria acusado de homicídio de alguma forma, da maneira que este dia me estava a correr. Sexta-feira 13 atacava outra vez. Decidi fugir.

Vou a correr pela rua abaixo quando se atravessa um gato preto no meu caminho. Agastado com todas estas ocorrências e com tanto azar a permear a minha vida, tentei afastar-me dele o mais depressa possível, para ver se me safava desta. Corri noutra direcção quase sem olhar e foi nessa altura que fui atropelado por um camião.

 

E pronto, foi assim que passei a minha sexta-feira 13. Só posso garantir que nunca mais subestimarei nenhuma superstição e aconselho-vos a fazer o mesmo. De resto, estou bem, obrigado pela preocupação. No hospital a recuperar. Só parti 47 ossos, portanto não foi assim tão mau. Se não der notícias nos próximos tempos não se preocupem, devo estar bem, só não devo conseguir ter acesso ao computador. Ainda não sei bem como é que funciona a prisão. Mas vou ter uns aninhos para me habituar.

 

Até lá.