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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Darwin Man

Tenham cuidado, ele anda por aí.

 

A salvar o mundo todos os dias, prevenir uma acção de cada vez. Pode estar em qualquer lado, pode aparecer de repente.

Estejam no duche e com pensamentos de ir buscar algum aparelho eléctrico, estejam a segurar a serra de uma motosserra entre as pernas enquanto a tentam ligar, estejam a lavar o carro com a capota aberta… Ele vai lá estar e vai-vos matar.

 

Há que impedir a estupidez de ser perpetuada no universo, há que assegurar a resistência e sobrevivência da raça humana.

 

Sempre que vires um programa estúpido, sempre que contribuíres para qualquer estupidez em forma de cultura seja difundida, sempre que recusares vacinar os filhos, sempre que disseminares falso conhecimento médico, sempre que demonstrares que não sabes nada de geografia mas insistires que estás correcto, sempre que chateares pessoas com detalhes do teu estilo de vida, ele vai estar a ver! E vai actuar!

 

Sempre que fores homofóbico, xenófobo, racista, sexista… Ele vai tomar nota.

Todo e qualquer argumento estúpido, toda a acção que puser em risco a humanidade, ele vai tratar de eliminar.

 

Não é o herói que queremos, mas é o herói que precisamos. Com urgência. É o herói que merecemos, depois de gerações a contribuir para aumentar o nível de estupidez sem fazer nada para o impedir. Ele é o nosso herói, um guardião silencioso, um vigilante protector… Ele é o Darwin Man!

 

A resolver e evitar os problemas com as suas próprias mãos, a assegurar-se que a selecção natural irá funcionar, ele vai livrar este mundo de todos os perigos da estupidez, ele não olha a meios para atingir os seus fins. Ele vai proteger a humanidade de si própria, vai garantir o nosso futuro.

 

Pensem antes de falar, pensem antes de agir, porque ele está a ver. Está sempre presente e irá matar-te se for necessário. Ele está no meio de nós. Darwin Man!  

Entrem e façam-se de casa!

Tenho a maior parte dos meus amigos chateados comigo e não faço ideia porquê. Sei que não fiz nada de errado, portanto a única explicação é que eles não estavam a ser honestos comigo. Porque eu assumo que quando alguém diz alguma coisa, quer mesmo dizê-lo e não são palavras vazias de significado. Eu sou simpático e aceito a simpatia dos outros. Ao que parece, os meus amigos não foram sinceros quanto à sua simpatia. Ou se calhar o problema sou mesmo eu, admito, mas custa-me a crer.

 

Por exemplo: fui jantar a casa do F. Como combinado entre os dois, fui mais cedo para ajudar na preparação. Quando cheguei, ele diz-me que tem de sair para ir comprar uma coisa qualquer que faltava, mas para eu entrar e começar a preparar a minha parte à vontade. "Faz-te de casa" disse-me ele. Muito bem, aí está uma coisa simpática que se diz e que deixa uma pessoa à vontade. Para me fazer de casa. Supus que estava a ser honesto, portanto fiz-me mesmo de casa. Estava eu a meio da preparação do jantar quando tocam à campainha. Fui lá ver quem era e não conhecia a pessoa. Tendo em conta que tinha sido deixado à vontade e para agir como se estivesse em minha casa, não abri a porta. Se não conheço uma pessoa, não vou deixá-la entrar em minha casa. Ela bem que barafustou que era a A., a nova namorada do F., mas qualquer pessoa pode dizer uma coisa dessas. E em minha casa não caio nessa esparrela. Avisei-a mais que uma vez; a certa altura tive de tomar medidas para defender o espaço que estava a tratar como meu. Chamei a polícia e disse que me estavam a tentar entrar em casa à força e enquanto esperei que chegassem fervi uma panela de água e atirei-lhe para cima. 

Para resumir a coisa, a polícia chegou para a deter mas teve de vir a ambulância também, porque as queimaduras eram muito severas. Entretanto chegou o F. e ficou incrédulo com o que viu. Começou a discutir comigo, o que acho uma falta de consideração dado que só fiz o que ele me pediu, mas depois teve de seguir para o hospital. O jantar ficou cancelado, como é óbvio. Por alguma razão o F. deixou de falar comigo desde esse dia, não sei se ficou ofendido com o email que lhe mandei a dizer que era de muito mau gosto cancelar o jantar minutos antes da hora combinada e que era uma vergonha desperdiçar toda aquela comida. 

 

Incrivelmente, este não foi o único caso. Em casa da L., a mesma conversa. Vou lá fazer-lhe uma visita, ela diz para me sentar, "faz como se estivesses em casa". Sim senhora. Estamos ali a meter a conversa em dia e noto que ela me está a olhar de esguelha pelo facto de ter tirado os sapatos e apoiar os pés na mesa. Notei que estava desagradada, mas fora ela que me tinha dito para fazer como se estivesse em casa. E se eu quando estou em casa gosto de tirar os sapatos e apoiar os pés na mesa da cozinha, mesmo que esteja a meio do lanche, quem é ela para me dizer que não? Mas a coisa não ficou por aqui, minutos mais tarde aparece-me um gato a roçar nos pés. Ora, para quem não saiba, eu sou alérgico a gatos. Portanto, na minha casa não. E para eu estar à vontade, o bichano não podia lá estar. Mais uma vez, não percebo a indignação da minha amiga, só se foi pela carta que lhe deixei a dizer que era de muito mau gosto ter um gato quando eu sou alérgico, e se me vou fazer de casa... Só pode ser pela carta, de resto não se passou assim nada. Já agora, resolvi o problema ao pegar no gato e atirá-lo pela janela do oitavo andar onde ela mora.

 

A minha amiga S. também está chateada comigo e, mais uma vez, não entendo bem porquê. Quando estava a fazer umas pequenas obras em minha casa e aquilo estava tudo de pantanas, ela disse que podia ir passar o fim de semana em casa dela, já que ela ia visitar os pais e não ia estar lá. Tudo combinado, apareço lá em casa e ela entrega-me as chaves, explica-me o essencial e diz para eu estar à vontade, "aqui estás em tua casa" disse-me ela. Ok, o fim de semana passou-se sem incidentes, mas no domingo ela chegou mais cedo do que disse que ia chegar. Logo aqui podem ver que eu não tive culpa nenhuma. Além disso, tinha-me dito que ali estava em casa. Assumi que ela estivesse a falar a verdade, acreditei na bondade do seu coração. Parece que era tudo falso. Aparentemente ficou muito chateada com a enorme orgia que se desenrolava na sua casa e muito chocada com o homem que se tinha coberto com as cinzas da sua falecida mãe e usava a urna para estimular outra pessoa. Qual é o mal? Se é aquele o fetiche daquelas pessoas... Foi tudo consensual e nas orgias em minha casa não há limites. E ali estava como que em casa...

Eu mantenho que ela ficou foi ofendida por não ter participado ou ter sido convidada. E nesse aspecto, talvez o meu reparo que se ela cuidasse um bocadinho mais de si poderia vir a ser convidada, não tenha caído muito bem. Só pode ser isso.

 

O último caso, e o que me levou a escrever isto tudo, aconteceu recentemente. Fui para o estrangeiro numa viagem de negócios e o meu amigo O. disse que podia ficar numa casa que ele tem. Assim poupava o dinheiro da estadia, já que trabalho por minha conta.

Deu-me as chaves de casa, as indicações e disse-me "Enquanto lá estás, é a tua casa. Fica à vontade". Foi muito simpático da parte dele, não foi? Pois, eu também pensei que sim, pelos vistos estava errado. É que a minha viagem de negócios não deu em nada e acabou por ser uma perda de tempo. Já que não ia regressar mais vezes, não me servia de nada ter uma casa naquela cidade. E como a casa era minha enquanto lá estava, palavras do O., vendi-a. Uma decisão normal e racional. Não sei porquê, não sei o que fiz, só sei que agora tenho que ir a tribunal porque o O. me está a processar. E éramos tanto amigos.

 

Alguém percebe o que se passou? Mais nenhum amigo meu me atende o telefone sequer, devem estar todos em conluio contra mim. 

Os malefícios dos benefícios

Há pouco tempo deparei-me com mais um artigo dentro dos milhares que existem sobre os benefícios da cerveja. Ora, eu como grande apreciador desta "águinha de nosso senhor" não preciso de saber os benefícios ou as suas vantagens para a beber. Mas já agora fui ver. E sim senhor, tudo muito bem. Agora, o que ninguém fala é dos malefícios de alguns destes benefícios, ou as falhas de alguns destes benefícios. 

 

 

Vejamos:

  • Minerais fortalecem os ossos

         Sim, sim, os minerais presentes na cerveja fortalecem os ossos. Muito bem. Mas há que ver que se beberem muita cerveja a probabilidade de uma queda é maior. Muito maior. Imaginem que estão num bar a emborcar litros de cerveja; quando vão a descer as escadas para se irem embora trocam os pés e só param quando derem com a cabeça na calçada da rua, um braço a apontar para o lado errado, como se fosses uma suástica humana, e e um joelho a tocar na nuca. Portanto, não se fiem nesta técnica de fortalecer os ossos, porque o mais provável é acabarem com eles desfeitos.

  • Protecção do coração

        Consumo moderado de cerveja é benéfico para o coração. Mas será que é mesmo? É que depois de beber umas cervejinhas, finalmente se arranja a coragem para partilhar todos os sentimentos que nutrimos por aquela pessoa especial. Vamos à chuva até casa dela, com o coração protegido pela cerveja, e confessamos tudo. Todo o amor que sentimos sai-nos pelos poros só para depois repararmos na sua cara incrédula, no suor que lhe abunda o corpo seminu e o parceiro bem dotado que se pavoneia por trás dela. Embaraçada mas um pouco divertida, ela diz-te que não sente nada por ti, mas que estima muito a tua amizade. Vais para casa desolado, de coração partido e sem nenhuma esperança de futuro. 

  • Protecção pós-enfarte

        Esta está relacionada com a anterior. Agora que estão com o coração desfeito, é o mesmo que terem sofrido um enfarte. Portanto, voltam a recorrer à cerveja para ver se recuperam. Como já se viu, em termos de protecção deixa a desejar e aqui não é excepção. A solidão instala-se e cais numa espiral de destruição. Todos os dias é um tal virar cerveja atrás de cerveja, sempre em busca da recuperação. No entanto, o que acontece, é que nunca chegas a recuperar e te transformas num alcoólico. Três meses depois estás a prostituir-te num qualquer bairro problemático em troca de mais uma dose de heroína, tudo para tentar reparar o coração que a cerveja era suposto proteger.

  • Fonte de bom colesterol

       A cerveja em si até pode ser uma fonte de bom colesterol, se bem que tratando-se de fontes, prefiro-as com água. Ou cerveja mesmo. Além disso, vou beber uma cervejinha, vou petiscando um amendoim, um tremoço e de repente estou que nem alarve a lamber os dedos depois de ter sorvido um ou dois hamburgers, meio quilo de batatas fritas e a tentar despachar-me porque um dos meus amigos conhece um gajo que nos vai servir leitão assado a esta hora. No final desta empreitada, bem que bebi cerveja, mas a nível de colesterol a coisa não está nada famosa.

  • Mais nutritiva que outras bebidas alcoólicas

     A querer perder algum peso, mas sem querer cortar nas necessidades nutricionais nem abdicar do prazer de beber cerveja, embarco numa dieta de consumo exclusivo desta bebida. Já que é assim tão nutritiva. Pois claro que a única coisa que me traz é o vício do alcoolismo e o problema acrescido de uma anorexia. 

  • Activa o funcionamento dos rins

    Portanto, estão a noite toda no bar constantemente a receber cervejas de graça. Já topaste o moço ou a moça que tos anda a mandar, mas ainda ninguém veio falar contigo. Claro que com tanto funcionamento de rins, dás por ti a ir incontáveis vezes para a casa de banho. Numa dessas vezes acabas por ir sozinho, já que só te estão a pagar bebida a ti e ninguém está aflito como tu. A última coisa que te lembras é de veres a pessoa que te estava a mandar cerveja atrás de cerveja a entrar na casa de banho com um sorriso maroto e um olhar voraz. Quando voltas a ti, apercebes-te que estás nu numa banheira cheia de gelo e que estás com 3,2% de défice; ou seja lá que percentagem for que um rim ocupa no teu corpo. Pois claro, aquele estranho misterioso só te estava a cuidar dos rins para depois se aproveitar deles e garantir o seu bom funcionamento.

  • Reforça o sistema imunitário

     Ao lado da banheira que acabaste de acordar com menos um rim, está uma caixa de cerveja. Imediatamente te recordas que a cerveja reforça o sistema imunitário e não hesitas em mamar metade da caixa e despejar sobre a tua ferida a outra metade. Quando contavas com um boost do teu sistema imunitário proporcionado pela mágica da cerveja, acabaste só por te embebedar e infectar aquela merda toda. Além de que perdeste tempo para ligar à emergência médica e acabas por te afogar no gelo derretido enquanto tentas curar a ressaca. 

  • Melhor ressaca

     É a melhor ressaca comparado com quê? Certamente é melhor estar a ressacar da cerveja do que o corpo a ressacar de um rim, suponho. Mas, pessoalmente, prefiro a ressaca de sumo de romã.

  • Aumenta a confiança

      E desde quando é que isto é uma coisa boa? Ficar com a confiança nos píncaros é sinal que só vais estragar tudo. O teres muita confiança é o que te permite apostares com os teus amigos que consegues deitar abaixo a parede do bar só com uma cabeçada. E como já demonstrei no inicio, os teus ossos não estão assim tão protegidos pela cerveja como pensas. O único resultado do teu excesso de confiança é uma cabeça partida e uma conta bancária mais pobre. Pronto, a alegria provocada aos amigos conta como ponto positivo.

Também foi por causa deste aumento de confiança que te partiram o coração e que foste despedido por seres um incompetente alcoólico, que disse que conseguia acabar aquele enorme projecto de milhões sozinho e dentro do prazo e acabaste por estragar tudo. 

Com tanta confiança que sentias, decidiste ir para o meio da pista dançar. O que se seguiu foi tão horrível que o teu próprio grupo de amigos decidiu partir-te as pernas para assegurar que aquilo nunca mais acontecia.

  • Diminui o risco de diabetes tipo 2

     E em relação ao tipo 1? Pois, não faz nada, incompetente. Além de que após ter comido hamburgers e batatas fritas e o tal leitão, ainda mamei uns 2 quilos de gelado, cerca de 140 bolachas e meio bolo de casamento. Até que ponto é que o meu risco de diabetes tipo 2 vais estar diminuído? É porque só fiz isto tudo por estar inebriado devido a tanta cerveja. Penso que demonstrei, claramente, que tem é o efeito oposto.

  • A cerveja é menos calórica do que um sumo de laranja

     E depois? A cerveja também é menos calórica que uma refeição completa e equilibrada, mas isso não quer dizer que ganha esta ronda. Aliás, já vimos o que acontece se se optar por uma dieta só de cerveja. É o mesmo que me dizerem que um T0 é mais pequeno que uma mansão. Sim senhor, tem as suas vantagens, mas eu tenho uma família de nove...

  • Aumenta a criatividade

      E, claro, a cerveja aumenta a criatividade. Até aqui não há problema nenhum, o que sucede é que não há nenhuma consequência prática deste aumento. Acabei de beber uma enorme de quantidade de cerveja, estou mais criativo que o Salvador Dalí sob o efeito de ácido, mas também estou todo bêbedo. E não encontro o meu caderno, não me lembro da password do computador, não sei onde pus as minhas tintas. A criatividade transborda de mim, mas o que crio não corresponde, nem de longe, àquilo que imagino. A dor só aumenta quando me passa a excelente ressaca e sei que tive ideias fantásticas, que a minha criatividade atingiu níveis históricos, mas que não me lembro de nada. E ia ser a melhor criação que este mundo já viu. Mas não me lembro. Além disso, tenho mais com que me preocupar. Estou com metade dos ossos partidos, falta-me um rim, estou a sofrer por amor e a precisar comer, mesmo que ainda me sinta enfartado...

 

 

E pronto, era isto. Só para terem as coisas em atenção e alguma perspectiva. Há sempre que considerar os malefícios que nos trazem os benefícios, não nos podemos fiar neles à maluca. E agora vou, que esta cerveja não se bebe sozinha.

 

Fantasias Matinais

Passo demasiado tempo imbuído nos meus próprios pensamentos, a construir toda uma narrativa alternativa para aquilo que me rodeia. Sim, sei que é normal, pelo menos quero acreditar que sim, mas não paro de ser arrastado para locais recônditos de um qualquer universo paralelo que habita a minha psique.

 

Por exemplo: hoje de manhã estava no metro e no meio de toda aquela azáfama fui de encontro a um senhor. Instintivamente voltei-me para trás e pedi desculpa. E foi uma boa desculpa, honesta, sentida e com uma justificação para o acontecimento: “Peço desculpa, não o vi.”

Após o meu pedido de desculpa, reparo que o senhor é cego. E que eu acabei de me desculpar por não o ter visto. E isto teve graça para mim. Ri-me. Na minha cabeça só, que não sou assim tão maluco para desatar às gargalhadas assim do nada, como se fosse algum assassino que acabou de desmembrar uma família inteira para fazer porta-chaves.

 

Imediatamente pensei o quão espectacular seria se o senhor me tivesse respondido “nem eu”.

Riamos os dois, bem alto. Sentia-se no ar uma certa sincronia que se começava a formar entre nós, assente no bom humor. Abandonávamos os planos e obrigações que tínhamos para o dia e íamos os dois para uma qualquer taberna. Horas passavam, os olhos cobertos de lágrimas de tanto rir. Sonhos e aspirações partilhadas. Um encontro fortuito numa manhã dava início a uma amizade perpétua e inquebrável.

 

Não tardava e estávamos a abrir a nossa empresa de detectives privados. Num quarto andar de um prédio decadente no centro da cidade estava o nosso escritório. O nome da empresa era “Cabra Cega”. Claro que tínhamos mesmo uma cabra no escritório, era a nossa mascote.

Tudo corria de feição: casos eram resolvidos, a cabra era mansa e adorada por todos os clientes, a nossa amizade mais forte que nunca e diversão não faltava. Até àquele fatídico dia. No meio de uma investigação a um dos casos mais sérios que tínhamos tido até ao momento e quando eu me aproximava de uma grande descoberta, fui atropelado intencionalmente. Um carro a toda a velocidade veio de encontro a mim, tal como eu fora naquela manhã de encontro a um estranho, e esbulhou-me todo.  O meu parceiro veio em auxílio, às apalpadelas pelo caminho. Como um Hansel moderno, seguia as pistas que neste caso eram pedaços das minhas pernas.

 

Meses depois, com menos duas pernas mas com uma cadeira de rodas nova, tentávamos, ainda, deslindar o caso. Continuávamos sem solução à vista, nem para isso nem para o meu atropelamento. Apenas sabíamos que os acontecimentos estavam relacionados. Durante meses o meu parceiro recriminava-se por não me ter ajudado naquele dia. Ou a evitar o acidente, ou a fornecer alguma pista. Eu bem que gritei com ele, por entre as dores que me assolavam na altura, para ver que tipo de carro era ou para anotar a matrícula, para ver o condutor, mas nada.

Carregado com toda essa culpa, decidiu fazer a única coisa que podia para tentar corrigir, ou pelo menos prevenir, nova situação daquelas. Não voltaria a deixar-me mal por não poder ver. Foi ao escritório a meio da noite e trocou os seus olhos pelos olhos da cabra.

A visualizar o mundo pela primeira vez enquanto tinha um estranho desejo de ruminar um pouco de erva, dirigiu-se a minha casa para poder partilhar a boa nova e assistir-me na resolução do caso. Aquilo que não esperava era ver o que viu. Bem, na realidade não esperava ver nada, porque ainda não estava habituado, mas mesmo que estivesse não esperaria aquilo. Pela janela aberta o meu parceiro que tinha sido cego mas agora tinha olhos de cabra viu-me a andar nas minhas duas pernas, em perfeita saúde.

Aquilo que ainda não vos contei, é que o acidente tinha sido encenado. Aliás, tudo tinha sido encenado desde o meu encontro “fortuito” com ele naquela manhã no metro. Eu era na realidade um agente secreto com uma missão muito importante relacionada com aquele homem. Não sabia porquê, trabalhava para aquela organização e seguia as suas ordens à risca. Mesmo que até me tivesse afeiçoado a ele, o trabalho vinha sempre primeiro. A missão requeria que a certa altura eu estivesse numa cadeira de rodas e que o meu parceiro tivesse sido incapaz de ajudar com algo em relação ao acidente. Tudo fazia parte do plano. Aproveitando-me da sua invalidez, tinha conseguido executar as minhas maquinações de forma brilhante. Só não tinha contado com uma coisa: com a verdadeira amizade e amor que ele nutria por mim, e as acções que tinha tomado por causa disso.

 

E foi aqui que cheguei à minha estação de metro de destino e prossegui com a minha vida, que eu tenho mais que fazer do que fantasiar com coisas estúpidas que derivaram de um simples encontrão.  

Será que é só a mim que isto acontece?

 

R.I.P. Samuel

Ontem foi um dia complicado: conheci e perdi um grande amigo. 

 

Restos de um Internacional Português. 

 

Decidi arranjar um animal de estimação, uma companhia, algo para amar e me alegrar a vida. Agora que tinha o espaço e a disponibilidade, como já estou a viver sozinho desde o divórcio - aliás, o nunca poder ter um animal foi uma das razões que levou ao divórcio: ela dizia que não precisávamos arranjar nenhum, que já me tinha a mim, o seu touro. Sempre pensei que a alcunha fosse pela minha potência sexual, mas era mesmo pela cornadura.

 

Vá, isso agora não interessa, fica para outro dia. O que importa é a minha viagem ao canil, para escolher um companheiro de vida. Queria alguém como eu, esperava que fosse amor à primeira vista: um animal abandonado, deixado à sua sorte, e, nós os dois, iríamos conhecer-nos, ajudar-nos e reaprender a ser felizes.

Foi mais difícil do que julgava, vagueei naquele canil durante mais de uma hora, mas não conseguia conectar-me emocionalmente a nenhum animal. E, para mim, essa conexão é o mais importante. 

Quando estava já quase a desistir, vi-o. Ali sozinho, no meio de todos mas isolado. Metido no seu mundo, rastejava para um canto e ali ficava, cabisbaixo. Foi uma cena de filme, apaixonei-me imediatamente. Aquela gosma reluzente, aqueles olhinhos irregulares, a perfeição. Decidi na hora, mas foi difícil de o trazer. Não me queriam deixar, da parte do canil. Diziam que aquilo não era animal para ninguém e que não era nada com eles, nem da sua responsabilidade. Que "aquilo" nem devia estar ali, não era nada que se pudesse adoptar. Perguntaram-me se eu tinha algum problema ou se estava a gozar. Depois de muita luta lá o trouxe, contra a vontade de todos. 

 

Chamei-o de Samuel. Vasco e Samuel. Eu e o meu caracol de estimação.

 

Samuel, num dos nossos momentos mais felizes.

 

Levei o Samuel para casa e tivemos a tarde mais magnífica que podia pedir. Mostrei-lhe o seu novo quarto, fomos passear à rua para ele fazer as suas necessidades, brincámos à apanhada, ainda jogamos um bocadinho às cartas...

Com o tempo comecei a ficar preocupado: o Samuel não tinha tocado na sua ração ainda. Nem água tinha bebido. Além disso estava com um compleição meia amarela e comecei a ficar preocupado. Será que estava doente? Afinal, não me queriam deixar trazê-lo, será que estava para ser abatido? Com olhar abatido já ele estava. Decidi ir ao veterinário então, até porque precisava desparasitar e ter as vacinas em dia. 

 

Infelizmente, o Samuel nunca voltaria do veterinário. Quando lá cheguei não me quiseram atender, também pensavam que estava lá a gozar e a fazê-los perder tempo. Enquanto discutia com a recepcionista, deixei a caixa de transporte do Samuel ali ao pé, numa cadeira. Com toda a azáfama não reparei que o Samuel se esgueirara pela grade da sua caixa. Quando notei o que estava a acontecer já foi tarde demais, só fui a tempo de ver o Samuel pela última vez, mesmo antes de ouvir um audível crack, provocado pela patorra de um Golden Retriver. 

 

A última vez que vi o Samuel.

 

 

Já passou um dia, mas a dor ainda permanece. Tive muito pouco tempo com o Samuel, só que foi marcante. Ao menos isso. Vou ficar com as boas memórias e tentar seguir em frente, sei que era o que ele queria. Descansa em paz, amigo.

 

 

Gostos não se discutem, mas criticam-se.

Sim, eu sei que os gostos não se discutem.

Mas... É assim tão mau que eu dê a minha opinião acerca dos vossos gostos esquisitos?

 

Não, não estou a falar de si, caro leitor que come iogurte com o garfo. Nem de si, leitora que põe folhas de alumínio no cabelo por uma qualquer razão estética. Esse tipo de gostos, menores, todos nós temos.

Estou a falar de gostos maiores que dizem respeito à vida, à realidade em que vivemos, aos desígnios do Universo.

 

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Estes desígnios.

 

Por exemplo:

- Quando morrer, quero ser enterrado ou cremado?

- O significado da vida obtém-se através das pequenas coisas do dia-a-dia ou através de sucesso pessoal, profissional e/ou familiar?

- Se viajasse no espaço, preferiria ir para Marte, já aqui ao lado, ou para outra galáxia?

- Para a minha dieta, escolho leguminosas mais comunitárias como o feijão e as ervilhas, ou opto pelo grão-de-bico e pelas lentilhas porque são das poucas que crescem sozinhas na casca?

 

Se me responderem, por exemplo, que preferem as leguminosas mais solitárias, então não tenho o direito de discutir convosco esse vosso gosto, pois claro que não!

Mas posso sempre dizer que esse gosto é estúpido e reflecte o quão mimados vocês são, que nem gostam de viver em comunidade.

 

No fundo, é isso. Não quero discussões sobre nada, só quero poder dar a minha opinião.

Agora vou jantar, que já tenho ali uma bela feijoada em cima da mesa à espera.

 

Sim, porque eu como feijão.

Não sou mimado, como vocês.

Art Debunkel: O Início - Parte 2

O Início - Parte 1

 

Art Debunkel, jornalista, filósofo e crítico do mundano. Morreu, tragicamente, a 17 de Junho de 2016.

 

Antes de prosseguir, apenas esclarecer a situação de Art Debunkel neste ponto da história, porque penso que possa não ter sido totalmente perceptível.

Art Debunkel nasceu com o sexo masculino e permaneceu com ele até ao fim da sua vida. Quando tentou vender os seus primeiros textos/críticas a ambos os jornais, tinha quarenta e um anos de idade. Iria permanecer na universidade durante mais três anos, até, finalmente, o seu trabalho ser reconhecido.

 

Um esclarecimento em relação à universidade: Debunkel trabalhava lá como empregado de limpeza. Se calhar dei a impressão que era estudante e que isto se passava enquanto era um homem mais novo, mas nada disso. Debunkel nunca frequentou aquela universidade na condição de estudante; nem aquela nem nenhuma. No dia que era suposto fazer o exame de admissão, Art Debunkel engasgou-se com uma sandes de peru e, quando lhe fizeram a artimanha de Strepcox, demorou a recuperar da dor no baixo-ventre. Dadas as circunstâncias, não pode montar a sua bicicleta e teve de caminhar até ao centro de admissões. Quando lá chegou, já tinha perdido a oportunidade de fazer o exame. Perguntou a um dos responsáveis se era possível repetir a prova e foi-lhe dito que o poderia fazer se saísse naquele momento e apanhasse cinco rãs roxas no tanque que se encontrava no jardim. Debunkel saiu imediatamente à procura das rãs e não percebeu que era uma piada do examinador, que iria haver novos exames no mês seguinte. Desistiu de caçar as rãs passado uma hora e foi para casa resignado com o seu destino, sem nunca retornar para fazer a sua prova e falhando assim o acesso à universidade.

 

Sempre acreditando no seu potencial, Debunkel ingressou na pintura e tentou vender as suas obras a vários colecionadores ou expô-las em galerias. Nunca teve sucesso nesse seu projecto porque, como lhe explicaram, era pintor de casas e não de quadros; não era passível de expor o seu trabalho em galerias, além de que era contratado para pintar paredes e as casas não eram suas para vender, por mais que alegasse que aquilo era a sua arte e muito mais válida que peças de arte moderna que via em museus; até porque era muito bom pintor e nunca pintava fora das linhas, como se podia ver nos vários livros de colorir que possuía, e que também tentou comercializar na beira da estrada ou em feiras.

 

Não existem muitas informações sobre este período intermédio da vida de Art Debunkel, mas podemos deduzir que se tratou de um período de grande aprendizagem e observação, que mais tarde lhe viria a trazer felicidade.

Foi nesta época que começou a produzir a sua obra escrita, que só viria a ver a luz do dia anos mais tarde (Debunkel escrevia durante a noite e, quando acabava, arrumava os cadernos num cofre, daí que estes nunca viam a luz do dia).

Quando alcançou os trinta e oito anos de idade, arranjou emprego na universidade como empregado de limpeza. Encarou este acontecimento como justiça poética, pelo facto de finalmente estar na universidade e logo no dia em que, por acaso, deu com cinco rãs roxas a nadar no meio dos seus cereais de pequeno-almoço. Veio-se a verificar que as rãs eram, na realidade, verdes, mas estavam em estado de hipotermia e a nadar para se aquecerem. Debunkel cuidou daquelas rãs até ao fim da vida – da vida delas, que foi curta, acabaram mesmo por morrer de hipotermia e nunca se chegou a perceber como tinham ido ali parar.  

 

Enquanto trabalhou na universidade, desenvolvia e tentava vender as suas obras e ideias. Durante todo esse tempo, continuou a viver com a mãe, ainda que esta não soubesse.

 

Três anos após ter começado a trabalhar na universidade, Debunkel tornou-se uma referência e um nome a reter. Depois de todas as rejeições por parte de jornais e editoras, Debunkel alcançou fama imediata por ter exposto o presidente da junta de freguesia, ao revelar que este cortava as unhas nas horas de expediente e com um corta-unhas adquirido com dinheiro público. O caso, que chocou a população, transformou o senhor Debunkel numa celebridade e repórter respeitado. Abandonou o seu emprego para ter o seu programa de rádio e liberdade para publicar as suas obras.

 

Começava, assim, a ascensão de Art Debunkel.

 

A memória já não é o que era

Depressa, leiam e prestem atenção!

 

Não é habitual partilhar momentos pessoais ou opiniões sérias; nada do que digo vale a pena. Hoje o caso é outro, diferente, importante. Hoje tenho uma coisa para dizer e peço que o leiam e percebam.

Não é fácil fazê-lo, mas por vezes a vida tem destas coisas. Não me importo com as consequências, se as houver. O que tenho a contar é grave e importante, e já aguentei tempo suficiente sem o dizer, contra tudo o que acredito. Sinto-me mal por não o dizer mais cedo, vejo agora que essa teria sido, sempre, a melhor opção e não me sinto bem comigo próprio por ter adiado e escondido isso de todos vós durante tanto tempo.

 

Não o fiz com maldade. Foi uma decisão pensada e muito reflectida. Concluí que era o melhor, o mais adequado e seguro, guardar a informação que tinha para partilhar. Achei que não era o momento, que podiam não estar preparados. Admito que estava errado, peço desculpa. Se calhar foi só por insegurança da minha parte, eu é que não devia estar preparado para falar disso abertamente e reprimo-me por isso. Mas já está feito e só me resta aceitar que o devia ter dito mais cedo; hei-de dizer agora e pronto.

 

Antes que alguém venha, antes que alguém me impeça, vou dizer e vou contar. E oiçam/leiam e não ignorem. O que tenho para dizer já decorre há muito tempo. Talvez não o tenha dito mais cedo para poupar algumas pessoas, ou então esperava que alguém tomasse essa iniciativa e não recaísse tal tarefa sobre os meus ombros.

Mas já passou muito tempo e estou farto da situação, vou ter de dizer e pronto. Mais nada. Há que ter atitude.

 

Portanto, prestem atenção, é sério e importante. Tenho algo a contar e vou mesmo fazê-lo.

Antes de mais algum contexto, senão ninguém percebe nada, também.

 

Então é assim, vou contar agora, isto tem tudo a ver com... Esperem... Ok, isto é embaraçoso. Peço que me perdoem, mas não faço ideia do que ia contar. Esqueci-me completamente. Já estou aqui há uns 37 minutos a tentar lembrar-me e nada. Nada mesmo. Não me consigo mesmo lembrar do que queria dizer.

Bem, paciência. Não devia ser nada de importante, afinal. Há-de ficar para a próxima, para outro dia qualquer. Mas o mais provável é que não seja nada. Se calhar só queria dizer que tinha de ir estender roupa, ou algo do género. Não sei, penso que não, mas não me lembro mesmo do que podia ser.

 

Não me consigo mesmo lembrar, o que seria... Olhem, paciência. Esqueçam. Não era nada de importante, de certeza. Sou capaz de nunca ter tido qualquer coisa para dizer, sequer. 

Artimanha de Strepcox

Enquanto estava a fazer pesquisa numa biblioteca muito antiga, como parte de um game show em que estou a participar, deparei-me com vários documentos a relatar as verdadeiras origens de certas coisas que assumimos saber, apenas para estarmos totalmente errados. Pequenas curiosidades e momentos associados a alguma descoberta ou conhecimentos perdidos. Reproduzo aqui um deles, sobre a verdadeira origem de algo muito conhecido e de um procedimento perdido na história.

 

Artimanha de Strepcox

 

Não tão famosa como a manobra de Heimlich, mas praticada por alguns puristas que defendem que Strepcox foi o primeiro a inventar um método para desimpedir as vias respiratórias quando obstruídas por um objecto estranho – para objectos conhecidos Strepcox recorria a outro método, fazendo uso da familiaridade e pedindo que se desalojassem sozinhos em troca de algum favor futuro.

 

No dia em que Strepcox foi registar a sua ideia, engasgou-se com o caroço de uma maçã e teve de se afastar da fila. Enquanto tossia, um miúdo com apenas nove anos de experiencia e dez de idade correu na sua direcção e deu-lhe um grande abraço pelas costas. A pressão causada pelos sucessivos apertos que o miúdo dava fez com que Strepcox cuspisse o caroço e ficasse fora de perigo. O rapaz pensava que Strepcox era o pai que nunca tinha conhecido e quando o viu desatou a correr para o abraçar.

Ao mesmo tempo que a mãe desculpava a atitude do filho, explicando a situação (que acontecia, em média, sete vezes por dia), o funcionário no balcão de registos, Henry Heimlich (na altura frequentava o curso de medicina, mas, tendo apanhado uma grande bebedeira na noite anterior e que ainda não tinha passado completamente, havia entrado no gabinete de registos e começado a atender pessoas que se encontravam à espera. Quando deu pelo erro tentou ir embora, mas o gerente disse que agora só o podia dispensar depois do almoço.), aproveitando a distracção, escrevinhou as regras para um procedimento ao qual chamou de "Manobra de Heimlich" e registou-o na hora, roubando assim todo o protagonismo que Strepcox esperaria para si mesmo.

 

A quem possa interessar: A artimanha de Strepcox consiste em sempre que vir alguém com as vias respiratórias impedidas por algum objecto, deve correr na sua direcção com o braço esquerdo levantado e o punho fechado, com excepção do dedo mindinho que deve permanecer esticado, ao mesmo tempo que roda o pulso e faz algum barulho que se assemelhe a uma sirene. Ao chegar junto ao individuo necessitado de ajuda deve começar com movimentos de dança tradicional irlandesa à medida que dá três voltas em redor da pessoa, finalizando com uma biqueirada no meio das pernas e três valentes murros na “boca do estômago”.

Com uma taxa de sucesso de cerca de 37,89%, tem a vantagem de fornecer uma dor alternativa para a pessoa se concentrar quando já não estiver a sufocar, bem como entretenimento e distracção para acalmar os nervos de quem está a assitir.

 

 

Art Debunkel: O Início

Art Debunkel, jornalista, filósofo e crítico do mundano. Morreu, tragicamente, a 17 de Junho de 2016.

 

Num dos seus últimos projectos em vida, o senhor Debunkel estava a reunir em livro uma colecção das suas críticas ao mundano e experiências. Seriam situações de vida que normalmente não recebem críticas e só quem passa por elas é que pode opinar e partilhar a sua experiência. Foi deste modo, aliás, que o senhor Debunkel começou por abordar este seu projecto; o seu mais antigo e passional.

Debunkel começou as suas críticas ao que todos julgavam ser uma parvoíce enquanto ainda estava na universidade, com o objectivo de vender os seus textos ao jornal e ganhar algum dinheiro extra. Quando o editor lhe disse que o que Debunkel tinha escrito era estúpido mas divertido quanto baste e que podia, ocasionalmente, publicar na edição de fim-de-semana na última página, a acompanhar o pequeno cartoon que lá constava desde o primeiro número [1], Debunkel não só recusou veementemente, como desejou que o editor sofresse uma morte dolorosa [2], sendo trucidado pelas plantas que mantinha em pequenos vasos por todo o seu escritório.

Art Debunkel considerava o seu trabalho demasiado sério e relevante para ser tratado com jocosidade e não admitiria que lhe fizessem passar por parvo. Levou a sua proposta, então, ao jornal da universidade que frequentava. Sempre se dera bem com a equipa do “Friki Triki”, o periódico universitário (o nome é o do primeiro reitor daquela instituição, como homenagem); quando ficou a saber que nenhum deles era pago nem que o iriam pagar a ele, Debunkel, uma vez mais, não reagiu bem. Desejou que todos eles tivessem um futuro brilhante e que o Plinksy (o editor) tivesse um filho padeiro [3].

 

Para esclarecer alguns pontos:

[1] Desde o primeiro número do jornal (na sua edição de fim-de-semana), quinze anos antes de Art Debunkel tentar vender os seus textos, que era sempre o mesmo cartoon, sem nenhuma alteração. Este caso insólito deve-se ao contrato que havia com o artista que o desenhou; estipulava que durante um prazo nunca inferior a cinquenta anos, o jornal só podia contar com um cartoonista e não podia publicar nenhum cartoon feito por mais ninguém. Também incluído no contrato estava a cláusula que garantia que todas as edições tinham, obrigatoriamente, de contar com um cartoon seu publicado.

A razão para ser sempre o mesmo cartoon prende-se com o facto de o artista ter cumprido o seu dever para a primeira edição e, no dia seguinte, ter visto uma abelha a pousar em cima de uma joaninha em pleno voo. Segundo Desnhak (o cartoonista), nunca iria ver nem conseguir reproduzir algo tão belo como aquilo e, portanto, recusava-se a desenhar mais. Como o contrato assinado não lhe exigia nada a ele, e recusou-se a rescindir com o jornal, a única alternativa foi continuar a publicar sempre o mesmo cartoon.

 

[2] Debunkel não dizia nada ao acaso, muito menos fazia ameaças em vão. A sua fúria em relação ao menosprezo que tinha sentido tomou aqui proporções drásticas e maquiavélicas.

Depois do insulto de que considerou ter sido alvo, Debunkel voltou todas as noites, durante um ano, ao escritório daquele editor-chefe, cujo nome era Holass. Foi trazendo novas plantas, cada vez maiores, encenava lutas de plantas, como se estivessem a atacar-se umas às outras, com folhas e terra espalhadas. Comprou dentes prostéticos e colou-os às flores, de forma a parecer que lhes estavam a crescer naturalmente. Holass foi notando estas mudanças, mas estava demasiado ocupado para se preocupar. Achava normal, afinal, eram plantas exóticas. Quando estas já atingiam o tecto do seu escritório e todos os dias havia alguma carnificina vegetal a limpar, o Holass começou a ficar apreensivo e decidiu fazer queixa na polícia e mudar de escritório.

A polícia deteve as plantas para interrogatório, mas não conseguiu que estas abrissem a boca. No final, foi emitida uma ordem de restrição e as plantas ficaram impedidas de se aproximar do seu proprietário. Não obstante a ordem judicial, no dia seguinte lá estavam elas, de novo no escritório, ainda mais ameaçadoras e com a carcaça de um cavalo completamente esquartejada no chão.

Mais uma vez a polícia interveio, sem nada conseguir provar.

Na manhã seguinte, Holass foi encontrado morto no seu escritório. O seu sangue espalhado por todas as plantas, que naquele dia se encontravam com os dentes à mostra. Foram detidas e condenadas à pena de morte ­– sujeitas a serem-lhes provocadas cócegas com recurso a uma pena, de forma a rirem-se até ficar sem ar e morrerem. Quando perceberam que o método habitual não estava a resultar com as plantas, queimaram-nas. Debunkel assistiu a todo este processo, deliciado com a conclusão do seu plano e com a vingança obtida.

Anos mais tarde, Debunkel viria a admitir que fora ele que assassinara Holass e que as plantas não passavam disso mesmo, e que nada tinham feito. Escreveu-o num ensaio em que criticava a inteligência e métodos policiais e utilizou o exemplo do absurdo que foi toda esta situação.

O caso foi levado a julgamento, mas o juiz rapidamente decretou que perante um plano tão brilhante e com conclusões tão acertadas sobre assuntos cívicos, ninguém iria beneficiar da condenação de Art Debunkel; que foi declarado inocente.

 

[3] Uma coisa que diferenciava Art Debunkel eram os seus insultos e pragas rogadas. Quando ele diz que espera que todos tivessem um futuro brilhante, não o faz sarcasticamente. Debunkel desejava para a equipa do “Triki Friki” um futuro ao Sol, brilhante, porque todos sabemos que elevada exposição solar é prejudicial à saúde.

Desejava, também, a Plinksy, que este tivesse um filho padeiro. Ora, isto deve-se ao facto de Plinksy pertencer a uma classe de pessoas que não pode comer pão, e o considera algo do mais terrível que existe neste Mundo – classe de pessoas que se classificam como maníacas das dietas. Portanto, para Plinksy, vir a ter um filho padeiro seria dos seus piores pesadelos.

 

As emoções ainda estão muito à flor da pele e por hoje tenho que parar por aqui, porque custa imenso tirar as emoções da pele; tem de ser com um esfregão especial e é uma chatice. Depois volto, para continuar esta minha homenagem/elogio/biografia/divulgação do grande homem que foi Art Debunkel.