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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

A arte de bem limpar o rabo.

Limpar o rabo é uma arte. Penso que disso não há qualquer dúvida.

Todos o fazemos, é certo, mas nem todos o fazemos bem. E não, não andei a averiguar nos rabos das outras pessoas, é apenas algo que se sabe, tal como o facto de alguns macacos terem piolhos. Já viram algum macaco com piolhos com os vossos próprios olhos? Não, claro, mas é óbvio que, com tanto cabelo, têm de ter.

Pois, funciona da mesma forma com o limpar o rabo.

 

Ora, eu - não me querendo gabar em demasia, porque isto não pode ser só auto-bajulação -, ao longo dos anos, desenvolvi uma capacidade que considero ser até um super-poder (lá está, nada de auto-bajulação).

É o seguinte: sempre que necessário, sei levar comigo a quantidade exacta de papel higiénico para limpar o rabo.

 

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Sou o Super-Cag... Enfim, sou super, vá.

 

"E porque levas tu rolo de papel higiénico para a casa-de-banho, Diogo?", perguntam vocês parvamente.

Porque partilho casa com outras pessoas que me são menos próximas, e porque sou fuinha. Ah, e porque não quero que saibam que uso papel perfumado para ficar com o rabinho a cheirar a rosas.

 

Sim, é verdade! Nunca me aconteceu ficar literalmente de calças na mão à procura de papel higiénico.

Quando a necessidade bate, a maior parte das pessoas tira o primeiro rolo que estiver à mão e nem repara se tem papel suficiente para satisfazer as próprias necessidades. Eu não. Eu gosto de tirar tempo para analisar os quadradinhos de que determinado rolo dispõe e ver se são precisos mais alguns, até em função do que comi algum tempo antes.

Chega até a ser divertido, se a vontade não for em demasia.

 

O resultado, além de um rabo completamente limpo, é pura satisfação. Satisfação e orgulho em mim próprio.

Que é o que é preciso na vida, além de um bom trânsito intestinal e de papel de folha dupla.

Cegueira, surdez e mudez.

Porque é que, na expressão "cego, surdo e mudo", o cego é sempre o primeiro, seguido do surdo e só depois do mudo? Porque é que não variam entre eles?

 

Sim, senhoras e senhores, hoje vamos falar de questões fracturantes. Contrariar o cânone, desmontar o mito, negar o conformismo que vem com o ditado popular.

E, no fundo, ser uma espécie de putos irritantes que acham que têm sempre razão.

O costume, portanto.

 

Ora, digam-me lá: faz algum sentido ser sempre o cego a liderar um grupo, seja ele qual for?

Já viram o que seria ter um cego a liderar um grupo de escuteiros, uma excursão de turistas ou mesmo uma procissão? Os santos e as tíbias que não se estilhaçavam pela ravina abaixo?

 

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 "Aqui jaz o Santo Amaro, vítima de procissão em terra de cegos."

 

A questão fulcral é: será, de todo, seguro o cego ir à frente de um grupo?

A resposta só é sim caso esse grupo seja constituído exclusivamente por cegos, não sendo, portanto, muito relevante escolher quem vai à frente.

 

Em qualquer outra situação, é preferível darem uma oportunidade ao surdo e ao mudo.

Ya, tipo, ser jovem podia ser mais fixe.

A parte mais difícil de se ser jovem é o que (ainda) pensam da juventude.

Os jovens são condenados por serem jovens. Se são jovens, não merecem ser mais nada do que jovens.

Não são levados a sério como profissionais, como potenciais parceiros, como agentes sociais. Porquê? Porque são jovens. E, por conseguinte, não poderão ser nada mais do que isso.

 

Eu próprio ainda sou jovem e, sinceramente, sinto-me mal por ser jovem. Parece que estou a incorrer numa qualquer infracção, tal é a condenação imediata e implícita a que estou permanentemente sujeito.

Vou passar a dizer às pessoas que sou um indivíduo de meia-idade, a ver se me levam mais a sério. Embora digam que a meia-idade seja a altura da crise de identidade… E a velhice também não abona muito a favor de ninguém em termos de consideração social.

 

Raios! Mas há alguma idade que eu possa ter sem que ninguém me chateie?!

Devaneios Irrelevantes da Imaginação

Tenho estado a tentar corrigir a minha falta de participação no blog, a tentar voltar, mas não tem sido fácil. Sei que isto não interessa a ninguém, mas não deixa de ser um ponto de honra. Mas então porque é que não o tenho feito, se o quero assim tanto? Não é propriamente por falta de conteúdo, porque há sempre alguma tolice a passear-me pela cabeça capaz de me entreter; podia dizer que a vida se meteu no caminho, que era devido ao trabalho, a isto ou aquilo, mas a verdade é que não é nada disso.

Quero fazê-lo, tenho ideias, tenho vontade de escrever alguma coisa, tenho tempo… No entanto, não tenho produzido nada. O problema é que acontece sempre alguma coisa quando tento escrever.

 

Sento-me confortavelmente, com o computador à frente e a secretária devidamente organizada de forma obsessiva compulsiva, com as distâncias entre as canetas e o bloco de notas cuidadosamente calculadas, alguns papéis soltos a dar a impressão de um projecto em curso e uma iluminação que me permite a melhor fotografia inspiradora que já passou pelo instagram.

 

Os dedos começam a dançar pelo teclado e dou por mim a perguntar-me o porquê de isso acontecer. Porque é que os meus dedos estão a dançar uma valsa por cima do teclado, não faz sentido nenhum. Assim nunca mais começo a escrever. Continuo a observar, fascinado, enquanto as minhas mãos se entrelaçam num fabuloso tango de teatro dedal. Do nada, a mão esquerda cai desamparada. Clara sabotagem por parte da mão direita, que assim custou o primeiro lugar neste concurso de dança manual. Todas as minhas canetas olham incrédulas para esta falha, e no seu papel de juízes dão uma nota baixíssima. As mãos afastam-se do teclado, abatidas e distantes uma vez mais. A mão esquerda não se contém e começa um ataque feroz à mão direita, metendo unhas ao barulho e tudo. A direita bem se tenta defender, mas a ferocidade da esquerda não amansa. Acusações de sabotagem começam a ser proferidas, as canetas já vieram todas ver o que se passava, eu contínuo fascinado, o cachecol pendurado nas costas da cadeira começa a meter-se, sem dúvida a ver que escândalo era este que não o deixava repousar calmamente. Descobre-se que a mão direita estava cansada de ter de fazer a grande maioria do trabalho, estoirada do seu papel dominante nesta relação e a incriminar a mão esquerda de ser uma mandriona, que nem tem jeito para nenhuma actividade. Todo este alvoroço culmina na revelação que a mão direita mantém uma relação amorosa duradoura com outra parte do meu corpo, órgão que a mão esquerda tão bem conhece mas nunca foi muito próxima. Saltam as tampas às canetas, o cachecol recolhe-se nas costas da cadeira e eu acabo por separar as mãos e pôr fim ao espectáculo, que isto de me meter em assuntos pessoais não é para mim.

 

Passada esta hora e meia, sem que nada para o blog tivesse sido criado, olho para o computador determinado a escrever aquilo que queria. É nesse momento que reparo na estranha mensagem que ocupa todo o ecrã, num fundo vermelho berrante umas letras garrafais brancas ferem-me a visão. Pior que isso é a sua mensagem:

 

Vasco: és a causa das vitórias do senhor Trump.

 

As pernas tremem-me e só não caio porque estou sentado. O meu computador, alvo de algum ataque informático para extorsão, talvez só para ameaça, mostra que alguém sabe a verdade, que alguém conhece o meu maior segredo. Aumenta o meu nervosismo e paranóia, sinto o batimento cardíaco na língua e fico intrigado: será que estou mesmo a sentir o batimento cardíaco na língua? Ponho os dedos da mão esquerda na língua e tento encontrá-lo. Pressiono e percorro toda a língua, mas nunca consigo realmente sentir o batimento cardíaco ali. Começo a ficar preocupado, será que estou morto? Levanto-me num salto e abro a porta do guarda-roupa para me ver ao espelho que tem numa das portas. Qual não é o meu espanto quando não vejo o meu reflexo! Já desconfiava, depois de não conseguir sentir o batimento cardíaco na língua. Não passo de um fantasma. Não sei quando morri, se sempre estive morto todos estes anos. É ao mesmo tempo que estou a colocar toda a minha existência em causa que volto a ficar demasiado ansioso e a sentir que estou com um ritmo cardíaco muito acelerado. Caio em mim e na estupidez do que estou a fazer, apercebendo-me que estava a tentar encontrar pulsação na língua. Olho com atenção para a porta do guarda-roupa e continuo sem ver o meu reflexo, mas agora percebo porquê. Não é este o guarda-roupa que tem o espelho na porta, é o outro. Dou uma boa gargalhada e preparo-me para voltar à minha vida quando me lembro do que realmente se estava a passar. A mensagem no meu computador! Alguém sabia a verdade e era preciso resolver este assunto de uma vez por todas. Esta informação não podia ser divulgada.

 

Olho com atenção para a frase que me enche o ecrã e de repente tudo faz sentido. E se vocês olharem com atenção também vão perceber. É uma mensagem codificada, criada com aquele conteúdo chocante para me fazer despertar. É muito fácil de perceber, é só reordenar as letras todas daquela frase e ficamos com a mensagem verdadeira:

 

Vasco, és cá um parvo. Tu estás só a sonhar.

DRDII

 

Tudo não passou de uma forma do meu cérebro me trazer de volta à realidade, de me despertar destas fantasias inconsequentes. DRDII (Departamento Real dos Devaneios Irrelevantes da Imaginação) é a sigla dessa secção do meu cérebro, como todos sabemos.

 

Assim que percebo a verdadeira mensagem acordo para o mundo. Nada disto se passou, continuo sentado à minha secretária com o editor de texto aberto e em branco. Finalmente despertei desta fantasia, mais uma de muitas. Agora estou demasiado alterado para escrever o que quer que seja para o blog, hei-de fazê-lo noutra altura.

 

A sério, eu bem que tento, mas continuam a acontecer coisas destas. Assim fica difícil.

Não subestimem as superstições

Podem pensar já não ser muito relevante, tendo em conta que a sexta-feira 13 já passou, mas posso-vos garantir que mais virão e é preciso ter cuidado. Outubro não tarda aí e não quero que passem pelo mesmo que eu; que a minha experiência vos sirva de aviso: não brinquem com as superstições.

 

Esta sexta-feira começou como outro dia qualquer na minha vida: com um grande bacanal na minha cama, que eu gosto de fazer exercício logo pela manhã e nada melhor que uma orgiazinha para pôr os músculos a trabalhar. Ok, esta parte é mentira, desculpem. Uma das minhas resoluções de ano novo era a de não mentir tanto e já o estava a fazer. O dia começou normalmente e enquanto me arranjava lembrei-me que era sexta-feira 13.

Eu nunca fui uma pessoa supersticiosa em relação a nada, não passa tudo de uma grande tolice para mim. Ao preparar-me para sair de casa, notei no guarda-chuva que estava ao pé da porta. Com este espírito jocoso que me é inato, decidi achincalhar o universo como forma de rebeldia e abrir o guarda-chuva dentro de casa. Num dos dias mais temidos do ano ainda lhe ia acrescentar outra prática supersticiosa associada a má sorte. Sim, sou uma pessoa corajosa; ou imprudente, como vão perceber.

 

Abro o guarda-chuva sem pensar em nada mais e dou com ele contra o lustre, que se solta do tecto e cai-me em cima. Isto só por si não é muito mau, porque nunca gostei muito daquele lustre, mas não deixa de ser uma chatice, até porque um pedaço dele ficou-me espetado no ombro. Comecei a ficar apreensivo com este azar causado por ter aberto um guarda-chuva dentro de casa. Querem ver que as superstições são para ser levadas a sério? Fui até ao espelho para ver melhor a minha nova ferida no ombro e tropeço no guarda-chuva que tinha ficado caído no chão e vou de cara contra o espelho. Ficou tudo desfeito, cara e espelho por igual. Ainda tentei ver em que estado estava, a olhar o meu reflexo nos resquícios de vidro partido, sabendo que estava a incorrer em mais uma prática nociva, no que à superstição diz respeito. Estava, além de magoado, a ficar bastante assustado. Não me devia ter metido com uma sexta-feira 13, era uma batalha que não podia vencer.

Ferido e ensanguentado saio de casa, arrastando comigo todo o azar que imprudentemente tinha contraído. Azar esse que se fez notar na figura de um elevador avariado. Ao chegar ao último lance de escadas vejo que está ocupado por um escadote e que a única maneira de passar seria por baixo dele. O senhor que lá estava a arranjar alguma coisa (não sei o quê, não conseguia ver bem por força de ter vidros espetados nos olhos) recusou-se a descer para me facilitar passagem e disse-me para não ser medricas e passar por ali. Nesta altura já eu estava tão assustado que nem estranhei ele nem se ter importado com o meu estado de prisioneiro de guerra escapulido. Passei por baixo do escadote e fui bater três vezes com o punho contra a madeira, para ver se anulava o efeito do que tinha acabado de fazer; já estava por tudo a esta hora. Só cheguei a bater uma vez. Não me tinha apercebido que aquele bocado de madeira que ali estava servia de apoio à escada. Não vi muito bem como tudo se passou, mas sei que o escadote caiu e o senhor deve ter aterrado mal. Tentei ajudá-lo, mas ele já tinha morrido. Pescoço partido. As minhas impressões digitais estavam por todo o lado. Alguém iria aparecer a qualquer momento. Eu seria acusado de homicídio de alguma forma, da maneira que este dia me estava a correr. Sexta-feira 13 atacava outra vez. Decidi fugir.

Vou a correr pela rua abaixo quando se atravessa um gato preto no meu caminho. Agastado com todas estas ocorrências e com tanto azar a permear a minha vida, tentei afastar-me dele o mais depressa possível, para ver se me safava desta. Corri noutra direcção quase sem olhar e foi nessa altura que fui atropelado por um camião.

 

E pronto, foi assim que passei a minha sexta-feira 13. Só posso garantir que nunca mais subestimarei nenhuma superstição e aconselho-vos a fazer o mesmo. De resto, estou bem, obrigado pela preocupação. No hospital a recuperar. Só parti 47 ossos, portanto não foi assim tão mau. Se não der notícias nos próximos tempos não se preocupem, devo estar bem, só não devo conseguir ter acesso ao computador. Ainda não sei bem como é que funciona a prisão. Mas vou ter uns aninhos para me habituar.

 

Até lá.

Queres ser bajulada a toda a hora, Marta?

Olá, Marta. Sou eu, o teu João.

Espero que esteja tudo bem contigo, comigo já esteve melhor... Sinto a tua falta. E, por isso, quero desenvolver uma estratégia que tenho visto ultimamente em muitos meios de escrita e que, ao que parece, tem tido bastante sucesso: escrever frases feitas.

 

Cá vai:

- Sabes, Marta, tu és a mulher da minha vida. Mais do que isso, tu és a minha vida! E, bem pensado, também és a minha mulher. No fundo, tu és minha! Eu sei que isto pode parecer um bocado doentio, mas também (visto de um certo ângulo) é romântico.

- Marta, queres casar comigo dia sim, dia sim senhor? Eu sei que, sem nos divorciarmos antes, tecnicamente só o podemos fazer uma vez. Mas falo de casamentos espirituais, em que as nossas duas almas se unem para sempre, cativam-se uma à outra cada vez que acordamos e - a melhor parte -, por ser um casamento apenas espiritual, não gastamos dinheiro nenhum no copo d'água!

- "Ser ou não ser", para mim, não é a questão, Marta: porque eu só sou se for teu, e, não o sendo, lá está, não sou. Confusa? Não faz mal, parece que é assim mesmo que funciona.

- Amor da minha vida, quero envelhecer contigo até não nos lembrarmos um do outro; até um de nós se esquecer do fogão ligado antes de sair de casa e esturricar o outro que estava na cama ainda a tentar lembrar-se se já tinha dormido ou se ainda ia dormir.

- És uma chata do caraças, Marta! Chegas a ser insuportável, mesmo. Porque eu estou sempre a pensar em ti, claro - e este factor surpresa inicial torna a frase muito mais querida porque combate aquela raiva inicial com a fofura que vem a seguir.

- Marta, minha Marta... O teu nome evoca o mar, mas também evoca o -ta, que constitui dois terços da palavra "batata". E tu sabes que eu adoro batatas, Marta, principalmente fritas.

- Não sei o que mais te dizer, tu que mereces tudo e ao mesmo tempo não mereces nada, porque nada do que eu tenho é suficiente para aquilo que tu mereces, que é, lá está, tudo... 'Tás a ver, Marta? Ya.

 

E é isto, Marta. Espero que tenha sido tão bom para ti como foi para mim.

Sinto que tirei um peso de cima dos ombros. Como daquelas vezes em que íamos a concertos e tu querias saltar para os meus ombros, com esse cu gordo a empurrar-me cada vez mais na direcção do Inferno. Lembras-te, Marta?

 

Amo-te, volta para mim. Se faz favor.

Como vês, continuo educado.

 

Do teu,

João.

O futebolista que tem medo de marcar golos.

Olá, eu sou o Carlos. Assim mesmo, só Carlos.

Não quero dar a conhecer a minha verdadeira identidade porque decerto vocês iriam reconhecer-me, tamanha é a minha fama... Mas queria desabafar um pouco convosco, sem ser julgado e/ou vilipendiado.

 

É o seguinte: eu sou um jogador de futebol. E um dos bons, atenção! Não há cá passes mal-feitos ou remates para as bancadas.

Só que, ultimamente, tenho estado "sob fogo" porque não marco golos. E não é por azelhice, nem nada que se pareça... É mesmo só porque tenho medo de o fazer.

Sim, sou um jogador de futebol que tem medo de marcar golos! Não gozem comigo, por favor, porque sou também uma pessoa bastante sensível e muito em contacto com os seus sentimentos...

 

E porque é que me dá os calafrios sempre que vejo a baliza adversária à minha frente, pronta a ser espingardada pelo meu portentoso pé direito? Porque sei que depois vêm os festejos, e é aí que o inferno começa.

Calduços, chapadas, palmadas, moches, cachaços, puxões, agarrões, pontapés e encontrões. Tudo o que é contacto físico que deve ser evitado no futebol jogado é canalizado para os festejos efusivos de um golo.

No outro dia joguei 87 minutos sem ganhar sequer um arranhão e, após marcar um golo aos 88 minutos, saí do estádio com um olho negro e três ombros desmanchados. E eu só tenho dois ombros!

 

Já viram um jogador de futebol durante um jogo? Já viram o quão florzinhas de estufa somos em jogo corrido? Porque é, então, que, quando o jogo pára para se celebrar um golo, já podemos levar toda a porrada possível e imaginária?!

 

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"És o maior, puto!"

 

Por tudo isso, evito marcar golos. Assim, ao menos evito lesionar-me e posso continuar a ajudar a equipa em todos os outros aspectos do jogo.

Menos o guarda-redes... Esse, como está demasiado perto de uma baliza e eu tenho mesmo receio delas, está por sua conta.

 

Saudações desportivas (mas meiguinhas)!

Muito mais que uma prenda

Desde criança que sempre quis ser um pirata. Não no sentido sério do crime sem escrúpulos e selvajaria que acompanha a profissão, mas pelo sentimento de aventura e liberdade, de luta contra o sistema, da anarquia de viver com emoção e adrenalina; tudo num sentimento romantizado da época dourada da pirataria. Tive espadas e mosquetes, pequenos navios, fascínio pelo mar. Aprendi sobre eles e sonhei. Vivi nessa fantasia, através dela. Ainda hoje o faço, por vezes. 

 

Já vivi muitas vidas e fantasias.

 

Não passava de uma criança a contemplar as estantes carregadas de livros do avô. Desejando por algo que pudesse ler, que percebesse e fosse adequado. A aguardar uma idade em que pudesse lê-los a todos, a expectativa daqueles mundos por descobrir, excitado pelas possibilidades de futuro. Já não sei como nem porquê, mas escolhi (ou foi-me escolhido) um livro de Emilio Salgari: "O Corsário Negro". E foi assim que começou, com um livro. Seguiram-se saltos em cima da cama, com estocadas imaginárias do meu sabre (e, pela primeira vez: não, isto não é um eufemismo), proclamação de revoluções e sanguinários feitos heróicos. Os restantes livros da série continuavam na estante, e fui-lhes agarrando um a um; acho que até hoje não me foi dada permissão para tal, mas também nunca me foi negada. Este acto não passou despercebido, e os livros desapareceram do seu lugar. A pouco e pouco foram-me sendo oferecidos, sempre que a ocasião o justificava, com uma pequena inscrição no seu interior. Se calhar o meu avô julgou que seriam ainda mais poderosos sendo uma prenda. Com alguma razão, é certo. A verdade é que foram muito mais que uma prenda.

 

Às pessoas especiais quero dar sempre mais. Não em quantidade, mas algo característico, com significado. Às pessoas especiais quero dar tudo, quero dar o mundo. Não posso. Por isso dou-lhes todo um universo, e mais. Dou-lhes um livro.

Um livro não é só um passatempo, uma ocupação; não é só uma história ou entretenimento.

Quando oferecemos um livro estamos a dar muito mais que isso. Um livro é uma vida, um pedaço de alma, uma experiência, uma viagem. É sentimento. 

Ao darmos um livro estamos a dar muito mais. O inatingível por outro meio, toda uma outra vida. Um sem número delas.

 

Este é o meu universo

 

Possui o poder de nos transformar, curar, inspirar. É um instrumento como nenhum outro, capaz de nos fazer imaginar, apaixonar, sorrir, acreditar. Muda o que pensamos, ensina-nos. 

Transforma-se em algo orgânico, é vida pulsante em caracteres. É sonho e esperança. 

Pode ser devastador, mas é sentimento. É aprendizagem.

 

É mais que viajar. É um portal mágico que nos leva para outro mundo. Deixa-nos viver outra vida, sermos o que quisermos. É tão real que o sentimos fisicamente. Somos detectives, guerreiros, ditadores, inventores, ferreiros, pilotos... Não há limites. 

Literatura existe para excitar, espantar ou deslumbrar; para ensinar e relatar. Choramos e rimos, mas nunca seremos iguais. 

Desde que existem livros que andamos a viajar. Passado ou futuro, realidade ou ficção, deixam de ser obstáculos a ter em conta. O bilhete é eterno e a viagem infinita. 

Vidas são mudadas e influenciadas, escolhas são tomadas. Somos aquelas personagens, reais ou não. Pelas palavras de alguém transformamo-nos, e, connosco, o mundo. Imaginamos o impossível e tentamos replicá-lo. Assim fomos evoluindo como sociedade, como espécie. Foi escrito num livro, foi lido, foi imaginado, foi alcançado. Ultrapassar o limite da imaginação é a nossa meta.

 

Evoluímos porque imaginamos.

Um livro é imaginação.

Tudo isto, e mais, é o que estamos realmente a oferecer.

É muito mais que uma prenda. 

 

The greatest art offers us images by which to image our lives. And once the imagination has been awakened, it is procreative: through it we can give more than we were given, say more than we had to say.

 

Lewis Hyde ("The Gift: Creativity and the Artist in the Modern World")

 

O começo de um novo dia

Acordei. O corpo ainda ressentido da inactividade; em passo dormente vou abrir a persiana, aproveitando para ir esticando os músculos. Mais uma manhã se prenuncia através do vidro, a hesitante luz solar invade o quarto e dilata-me as pupilas que agora observam a neblina matinal a assentar.

 

Mais um dia, mais do mesmo. Não há tempo para contemplações, o tempo está contado, a rotina está em marcha. Avanço morosamente pela casa, enquanto arrepios me atacam o corpo. Recordo com saudade o tempo que passou. As poucas mas gloriosas horas em que estive protegido do mundo e de mim mesmo, a quentura afectuosa que me cobria; desespero pelo tempo que falta até voltar àquele local de felicidade. Dizem que não devemos voltar onde já fomos felizes, mas eu discordo, até porque se assim não fosse, onde é que iria dormir hoje? É que cama só tenho uma e é nela que penso. É nela e com ela que sonho. O meu olhar capta uma aparência esgazeada no espelho da casa de banho e volto a despertar para o presente, deixando de lado as memórias de uma noite e os desejos do dia.

 

Pouco a pouco os olhos vão-se habituando à luminosidade, a temperatura corporal vai subindo e a mente relaxa. Mais um dia, mais do mesmo. Ou será? Não. Hoje não. Hoje é diferente.

Uma metamorfose espiritual começa a tomar forma, a pele avermelha e agora estou quente. Quente como há muito já não estava, desimpedido. Hoje tudo muda. Eu tenho confiança, mais do que alguma vez tive. Invade-me, caída de cima e a chocar com força. Respiro fundo e olho em frente: hoje é o dia! Eu sou capaz, eu tenho valor. Sinto que tenho as respostas todas neste momento de lucidez espontânea.

 

O ritmo cardíaco acelera, a excitação aumenta. Um sorriso desenha-se no rosto. Respiro fundo e abro os braços. Aceito a responsabilidade que coloquei em mim próprio. Nunca mais serei o mesmo. Verso e rimo. Tenho ânimo e é assim que o exprimo. Resolvo problemas e tomo decisões, tenho ideias, tenho respostas. Sei o que quero, sei o que fazer. Nada me vai abrandar, a decisão está tomada. Porquê hoje? Porque não? Já pensei o mesmo de outras vezes mas nunca se materializou. Hoje é diferente, hoje é o dia. Estou solto, livre, feliz. Sou capaz e sinto-me capaz, guerras serão travadas, batalhas serão ganhas. Homens irão à luta por mim, morrerão por mim. Sem medo, sem vergonha, sou uma inspiração, um exemplo. Continuo, estóico. Sou a revolução.

 

Culmino de braços no ar, cabeça erguida. Extasiante, rejuvenescido.

 

Em dois segundos tudo muda. Braços caídos, cabeça baixa, vergonha aterra no corpo. Os olhos humedecidos voltam a focar a realidade. Fechei uma torneira e o peso de toda a minha existência voltou a brotar.

 Acabou o duche.

Ponho um pé fora da banheira e depois o outro. Débil, encarquilhado, vergado. As gotas assentes na pele vão invadindo o meu interior, esfriando todo o meu ímpeto. O corpo treme enquanto procura a toalha, atabalhoado. Agora sim é tudo real. Como que acabado de nascer, sozinho, indefeso. De certa forma, nasci agora para este dia. Parado, nu, toalha por cima dos ombros, sob os escombros de uma guerra interior. Mais uma derrota. Enxugo-me, mas as gotas frias já se interpuseram na pele; já me gelaram o interior.

 

Raios de sol, pequenos tentáculos de luz, penetram o interior da casa de banho. O mundo está a girar, tudo continua. Eu estou na mesma. Tento recordar o que senti, o que pensei. Não consigo. Nada resta dos momentos climáticos antes do meu nascimento matinal, como sempre acontece. Hoje é apenas mais um dia.

Aos poucos a gravidade vai ficando mais fácil de tolerar. Os pensamentos entram em ordem, atinge-se um meio-termo. Mais logo há cama outra vez. Amanhã volto aqui, atravessar para esta realidade alternativa que só é possível com um duche quentinho. Amanhã vou ganhar. Amanhã é o dia.

Alguém tem uma casa que me empreste?

Pessoal, estou com um problema: preciso de guarida. Se faz favor, isto é, que eu sou um rapaz educado.

Explico-vos o que aconteceu...

 

Estava eu hoje a dormir bem quando, por volta das 10h41, acordo sobressaltado com um estrondo. Apesar do imenso barulho acabo por não ligar, porque sei que o apartamento ao lado está em obras e tudo não deve passar do trabalho dos homens, que não têm culpa nenhuma.

Contudo, não consigo adormecer novamente (eu gosto de dormir até tarde, não me julguem) porque parecia mesmo que eles estavam ali, no meu quarto, a esburacar tudo aquilo que conseguiam encontrar.

 

Era óbvio que tudo não passava de impressão minha, pensava eu, porque eles nunca iriam destruir tudo desde o apartamento ao lado até ao meu quarto. Mas a verdade é que, quando acordei e me sentei na cama, dei logo de caras com um deles, que me olhou como se eu não devesse estar ali e apressou-se a ir falar com os colegas.

 

Construction-Workers-Original-permit.jpg "E o gajo ali, na cama, no meio da nossa obra!"

 

E eu disse-lhes:

- Ó senhores, muito bom dia, antes de mais. O que é que estão aqui a fazer no meu apartamento?

 

Os cavalheiros, após darem uma olhadela em volta, aperceberam-se do erro que tinham cometido e pediram mil desculpas, prometendo nunca mais me esburacar o apartamento todo. Eu disse-lhes que não havia mal, mas que, se quisessem fazê-lo novamente, então que esperassem até haver no apartamento ao lado uma miúda gira, que, ao menos assim, já não se perdia tudo.

Não tenho nada contra a actual inquilina, a Dona Fátima, mas não é a mesma coisa.

 

E assim acabou a minha manhã, com quatro homens a tentar refazer a minha parede do quarto com pastilhas elásticas e fita-cola - não tinham trazido o material necessário para construir, só para destruir - enquanto eu tentava dormitar só mais um bocadinho porque ainda não estava completamente satisfeito (já vos disse, gosto de dormir até tarde).

 

Ora, recapitulando: alguém me dá guarida?

Especialmente miúdas giras, mais jovens do que a Dona Fátima?