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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#09)

Neil Gaiman publica um novo livro e isso, normalmente, é suficiente para me interessar. Ainda para mais quando vejo o título e faço a pré-encomenda, passando os restantes meses de espera a fantasiar, a gerir a expectativa e a pensar em como finalmente vou ficar a saber tudo sobre mitologia equídea.

 

Guia de marteladas históricas

  

Sim, perceberam bem, mitologia equídea. Isto porque, quando vi o anúncio ao livro, o que li foi "Horse Mythology". Fiquei-me por aqui, que não gosto de saber muito mais sobre um livro antes de o ler. Ora, isto para mim foi suficiente para me cativar. Delirei a imaginar todos os segredos e história desta rica mitologia que ainda não conhecia. Calculei que ficaria a saber, por fim, como se formaram os primeiros unicórnios, a lenda do primeiro galopador, os segredos por trás do astuto cavalo que inventou o trote, o Deus maior dos cavalos, o grande Pégaso... Ou, ainda, as origens do conflito de titãs entre cavalos e touros, que segundo consta foi o que deu origem à separação dos continentes, a história do malandro cavalo que se aventurou fora da sua espécie e foi ostracizado e relegado a um pónei como penitência, as magníficas circunstâncias que levaram à criação de ferraduras... E, claro, sem esquecer o fim do mundo, presente em todas as mitologias de valor, que se daria num épico confronto liderado por um pónei revolucionário, cansado de ser motivo de chacota entre os seus e de adoração entre os humanos, a libertação dos touros e a insurreição dos unicórnios.

 

Tinha tudo para ser das melhores obras de sempre, a quem é que isto não interessaria?

No entanto, só quando recebi o livro é que notei que afinal era  "Norse Mythology".

 

Before the beginning there was nothing – no earth, no heavens, no starts, no sky: only the mist world, formless and shapeless, and the fire world, always burning.

 

Neil Gaiman chama a si a tarefa de nos contar os mitos nórdicos, toda a fantasia, e história, que os envolvem. Não são contos de ficção com base na mitologia nórdica, mas sim os contos desta mitologia contados pela voz do autor. No fundo acaba por ser um livro de não-ficção, tanto quanto se pode considerar não ficção os acontecimentos que sustentam toda uma mitologia. 

Esta mitologia sempre esteve presente nos trabalhos do autor, como inspiração ou a popular os seus trabalhos com algumas das suas personagens. Aqui, Gaiman conta-nos o clássico. Com o seu estilo, a sua escrita harmoniosa e sempre poética, abordando os mitos como se estivesse a escrever um conto de ficção, mas sempre com base, apenas, na mitologia nórdica. É o equivalente a passar uma noite com Neil Gaiman ao relento, em que ambos puxamos de um copo de hidromel enquanto no céu se manifesta uma aurora boreal. E, pela sua voz, ele encanta-nos e dá-nos a conhecer estes mitos.

Of course it was Loki. It's always Loki.

 

Tomando como referência apenas os clássicos, o Edda em prosa e o Edda em verso, Neil Gaiman adapta os mitos e partilha a sua história, estruturado como um livro de contos tradicional e não como um manual ou algo enciclopédico. Torna tudo ainda mais apelativo e interessante de conhecer, servindo como ponto de partida e descoberta, uma boa introdução, para toda esta mitologia. A forma acaba por se basear no conhecimento e ponto de vista de três dos principais Deuses nórdicos, e porventura os mais conhecidos Odin, Thor e Loki. São eles a força motriz por trás da maioria dos acontecimentos. Todo o livro se desenvolve como se de um Romance se tratasse, devido à forma como está estruturado. Começando pela criação do mundo, acompanhamos todos os eventos, as relações e interacções entre os Deuses desde a criação de Asgard e sempre num crescendo até ao clímax que é o Ragnarök. Pelo meio, ficamos a saber como é que se construiu o muro à volta de Asgard, ou como os Deuses obtiveram alguns dos seus tesouros, como o martelo do Thor, ou, ainda, as origens da poesia, por exemplo.

 

O livro é bom, "simpático", despreocupado, leve, pautado com muito humor (a parte mais fraca para mim, um bocado inocente, infantil demais), bem estruturado, interessante e informativo. Tem uma aura mítica que rodeia o conto destas hitórias, apoiada pela escrita e estilo do autor, o que só contribuiu para o melhorar. Lê-se de uma assentada, imbuído no espírito e fascínio de toda uma mitologia, da sua história, do que sutenta, ou sustentou, toda uma outra cultura. 

 

The fun comes in telling them yourself—something I warmly encourage you to do, you person reading this. Read the stories in this book, then make them your own

 

A página em branco

Ultimamente não tenho escrito muito, nem aqui nem só para mim. Tal facto não incomoda ninguém a não ser eu próprio, porque gosto de o fazer. Podia listar um sem número de razões para ter acontecido isto, mas a verdade é que a culpada acaba por ser só a preguiça. O que não deixa de ser um contra-senso, pois é algo que me traz satisfação e prazer, algo que estimo. Mas, como em imensas destas situações, mesmo que seja algo que queira muito fazer, acabo por deixar passar por preguiça de começar.

 

Claro que o tempo, ou falta dele, é sempre um factor, mas não é desculpa neste caso. Podiam haver outras razões, como o famigerado medo da página em branco. 

Contudo, ideias não me faltam. Não é para me gabar, mas tenho uma enorme quantidade de ideias de coisas para escrever. Nenhuma delas boa e que valha a pena, tal como na maioria das vezes; mas elas existem e não é um problema. E mesmo que não tivesse, era isso que me ia impedir? Quem já leu algo do que aqui publiquei pode atestar que não.

 

Outra coisa tem a ver com esta noção: o medo da página em branco. A página em branco não assusta, aliás, só pode reconfortar, dar segurança...

A página em branco não pode magoar ninguém, não ofende ninguém, não choca ninguém. Enquanto a página estiver vazia, nada acontece, ninguém gosta e ninguém odeia. A página em branco é sem opinião e sem visão, não é um princípio e é sem fim. A página em branco é segurança, porque é sem risco. Enquanto não se fizer nada, nada acontece. A página em branco é sem identidade; é uma não existência e o que não existe não assusta, não pode influenciar nada, não provoca reacção nenhuma e isso é sempre seguro. 

A única altura em que uma página em branco podia assustar seria se chegasse ao supermercado e a lista de compras estivesse em branco e eu ficasse sem saber o que me faltava. Ou se estivesse a fazer uma lista de pessoas que me são queridas e a página permanecesse em branco. Ou se fosse indicado como suspeito num caso de homicídio e a única prova que tivesse para atestar o meu álibi fosse um qualquer documento que, de repente, estava em branco. Isto seriam situações em que compreenderia o medo da página em branco, porque de resto, não nos pode tocar, por isso não há que ter medo, certo?

 

Ou então assusta, mas não por si mesma: por ser uma representação do nosso estado interior, do vazio que nos assola, da falta de identidade e visão, da falta de um princípio, da falta de coragem ou propósito, de um outro medo maior; o de arriscar e falhar. A página em branco é uma lembrança constante do que não temos, do que falta, da extrema segurança e monotonia que se disfarça de conforto, uma constante visual da estagnação.

 

A página escrita, essa, é que assusta. Aí é que está o perigo, as opiniões, os gostos, as ideias, as emoções. A página escrita é que pode ameaçar ou reconfortar, fazer nascer ou quebrar, inspirar e admirar ou delirar. Na página escrita é que há vida em cada palavra, é que provoca reacções, é que existe a possibilidade de ser horrível. É que pode desiludir e fazer cair, ofender e deitar tudo a perder, mas é também ela que conquista. É onde existe o risco, que tem de ser encarado e aceite. É uma queda livre sem saber se o pára-quedas se abre.

 

Sim, a página escrita é que assusta, é a única que tem consequências. 

É aí que está o medo.

Mas o medo é bom. O medo é necessário. O medo é vida. Vai sempre existir.

Uma página em branco não é ameaça, quanto muito é mordaça e, nesse caso, assustaria.

A página em branco é um limbo existencial, não há consequências. Nem positivas nem negativas.

Antes arriscar. Antes ficar assustado. Porque é a página escrita que faz o coração bater mais depressa, é ela que tem algum significado. Não se assustem com uma página em branco: é inofensiva. Preencham-na com palavras e sintam o que houver para sentir.