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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Ernesto, o limpador-de-óculos.

Hoje quero falar-vos do Ernesto.

O Ernesto é o mais antigo limpador de óculos da minha rua. Sim, leram bem, limpador-de-óculos.

Talvez não conheçam a profissão por já ser velha, praticamente inexistente, mas ela existe.

 

clean-glasses_bd6f2377aa808ed3.jpgE ainda bem.

 

E o Ernesto é um limpador-de-óculos à maneira, que oferece um serviço completo e personalizado para todo o tipo de óculos: com hastes, sem hastes, de armação pesada e escura ou leve e clara, com lentes castanhas, verdes, azuladas, transparentes, grandes ou pequenas. Enfim, o Ernesto é pau para toda a obra!

 

Conheci o Ernesto num dia de calor em que, devido ao suor, os meus óculos enevoavam-se constantemente. Ao passar pela banca do Ernesto, que eu sempre julguei tratar-se de um engraxador de sapatos, tanto era o material de que dispunha (inclusive aquelas bisnagas mariconças), ele disse-me que, se eu quisesse, ele tinha o produto ideal para o meu problema; uma espécie de cera translúcida que não deixava os óculos embaciar.

A princípio refutei, porque julgava tratar-se de material engraxador de sapatos e, como toda a gente sabe, eu só uso chinelos. Mas depois lá arrisquei. Ainda hoje, quando penso nisso, surpreendo-me com a técnica e a prática do Ernesto. Em menos de um minuto, os meus óculos ficaram limpos, impermeáveis, perfeitos! Quis pagar-lhe mais do que ele pedia e, após muita insistência da minha parte, consegui. Afinal, ele merecia.

 

Ora, hoje, fui visitar o Ernesto ao hospital. Não se preocupem, ele está bem.

Só que apanhou uma infecção nas vistas enquanto estava a limpar os seus próprios óculos e tem mais de 80% de probabilidades de ficar cego.

 

Enfim, a vida tem destas coisas.

Um abraço apertado, Ernesto!

Não quero saber de nada.

Tenho uma dor no escroto.

Quer dizer, não tenho, mas vocês acharam que sim. E era isso que eu queria, no fundo. Chamar a vossa atenção.

 

Porque tenho, isso sim, uma coisa para vos confessar: eu não quero saber do Brexit.

Sim, é verdade. Não quero saber do Brexit.

Nem quero saber do Euro 2016, nem dos recordes do Cristiano Ronaldo, nem do microfone da CMtv, nem da Copa América, nem do penálti falhado do Messi, nem do estado atual da economia (do país e internacional), nem das maluqueiras do Trump, nem das eleições em Espanha, nem do miúdo gordinho do MasterChef Portugal e, nem sequer (Deus me perdoe), do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa e das suas intervenções diárias para dar a meteorologia.

 

phpThumb.php.jpgDesculpe, Sr. Presidente.
Não me olhe assim, por favor.

 

Só quero saber de uma coisa: porque é que ainda não inventaram um aparelho que desprende sozinho os testículos das pernas em dias de calor, como o de hoje?

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#04)

Mais uma vez desiludido. Não percebo porque é que isto me continua a acontecer... 

Antes de prosseguir, deixem-me só esclarecer: esta desilusão nada tem a ver com a qualidade do livro sobre o qual vou escrever, "A Vida no Céu" de José Eduardo Agualusa, mas sim porque escolho o livro convencido que vou ler sobre uma coisa e afinal não é nada disso. 

 

Leio o título "A Vida no Céu" e imediatamente penso que vou ler e aprender sobre a vida de Deus. Aquilo que faz no seu tempo livre, o que faz quando está em casa descontraído, se tem de ir aos correios e às finanças como nós ou se não é necessário, se briga com Jesus para este ir levar o lixo à rua e arrumar o quarto.. Sei lá, coisas assim. Coisas da vida, mas no céu. Podia ficar, finalmente, a saber se Deus aceitava o estilo do filho ou se preferia que fizesse a barba e calçasse uns sapatos decentes, nem que seja quando tivessem companhia, que tipo de alpista come o Espírito Santo ao pequeno almoço, se Maria ainda é virgem... As questões são imensas. 

Não tive nada disto, com muita pena minha.

Tenho mesmo de parar de escolher livros apenas pelo título. E de os interpretar com base nisso...

 

Eiii!! Esqueceram-se de mim!

 

 

Aquilo que tive foi, sem dúvida, uma bela história.

Quando peguei no livro achei que era pequeno demais; com a história que apresenta, pensei, à partida, que a ideia era interessantíssima e que havia tanto para explorar, porém, o livro conta com poucas páginas. Como é que em 186 páginas vai ser descrito, explicado, mostrado e desenvolvido um mundo num futuro distópico em que a superfície do planeta está completamente coberta por água e com temperaturas intoleráveis que só permitem a sobrevivência no céu, em dirigíveis, balsas e balões voadores?

 

"Esperança: é o nome que damos às nuvens quando nos falta a água."

 

Bem, digo-vos que é possível fazer isso neste pequeno número de folhas, e é possível por causa do autor. José Eduardo Agualusa escreve com uma simplicidade e uma magia em cada palavra que é cativante. Para mim, marca de um grande escritor, consegue dizer tanto com tão pouco. Chegado ao fim, sinto que sei o que preciso de saber sobre este mundo e que isso basta. Podia ser diferente, podia ser mais, mas não é preciso. Uma pequena história, uma pequena aventura. Não chegamos totalmente a conhecer as personagens e ao mesmo tempo conhecemo-las perfeitamente.

Escrito na primeira pessoa, embarcamos nesta viagem juntamente com Carlos, na busca pelo seu pai. As várias personagens que se vão juntando e cruzando o seu caminho dão-nos a conhecer este novo mundo e conseguem o seu espaço para crescer ou resolverem-se. Não esperem grandes surpresas ou grandes desenvolvimentos, não é necessário para a mensagem que quer passar. É uma viagem. Por vários países e culturas, mesmo nas nuvens.

De leitura rápida e sem nunca perder o foco, sem paragens para grandes descrições ou explicações, sem uma análise a um futuro distópico e negro; é antes uma história sobre a descoberta, sobre identidade, de saudade e esperança, dos velhos e dos nascidos nas nuvens. Acima de tudo é uma aventura, é a procura de um sonho.

 

Identidade.Não tem a ver com o lugar onde nascemos, pois no céu tudo é movimento, e sim com os lugares por onde passamos. Identidade é o que a viagem faz de nós enquanto continua. Só os mortos, os que deixaram de viajar, possuem uma identidade bem definida.

 

 

 

 

A beleza das palavras.

Palavras.

É só por isto que é composto um texto, um email, um blogue, um livro: de palavras.

 

Palavras curtas e palavras compridas. Palavras simples e palavras complexas. Palavras com muitas vogais, palavras com demasiados "s" e alguns "c". Palavras como "contabillista", "outorgar", "soporífero", ou, até mesmo, "cócó".

 

Qualquer linha de texto é composta por várias palavras que seguem em fila indiana. Resta-nos organizá-las de forma a fazerem sentido ou, pelo menos, a quererem transmitir uma ideia geral.

Se eu disser, por exemplo, que "Telefone de cacos xisto somos ali caneta estupendamente", componho uma frase. Não é uma boa frase, nem sequer uma frase coesa; mas não deixa de ser uma frase.

Já se eu disser que "No fim de semana vou comer-vos as sobrancelhas à chapada", continua a ser uma frase. Ainda estúpida, é certo, mas já com algum sentido.

 

Ora, e isto tudo para dizer o quê?

Que já escrevi mais um texto sobre porra nenhuma e vocês nem deram por ela.

 

Ha!

De fazer crescer demasiada água na boca.

Peço desculpa por vos estar a escrever novamente num tom um bocado cabisbaixo, mas é que morreu outra amizade minha.

Quer dizer, não foi bem a amizade que morreu, foi mesmo o amigo. Embora suponha que, depois da morte dele, não possa haver muitas mais interacções de amizade entre nós... Seria só estranho.

 

Desta vez, quem morreu foi o Frederico. Ou o "Rico", como nós o chamávamos, só para contrariar aquelas pessoas que costumam abreviar para "Fred".

O Rico adorava comida, mas não gostava de comer. Sim, é verdade; o Rico apenas gostava de pensar na comida, imaginá-la, reflectir sobre ela.

A sua verdadeira tara era salivar. Era um caso estranho, quase patológico, mas era a cena dele e nós não o chateávamos. Porque éramos verdadeiros amigos do Rico!

A sua rede social favorita, como devem imaginar, era o Instagram. Aliás, este seu vício começou por ele andar a apreciar as fotos de almoços e jantares gostosos cheios de filtros coloridos que os amigos iam publicando.

 

Tal como aconteceu como a Alda, também o Rico morreu, ao menos, a fazer aquilo de que realmente gostava: a imaginar comida.

O que aconteceu foi o seguinte: o Rico passou oito meses fora de casa, a viajar pelo Mundo para conhecer vários outros pratos e estilos de cozinha que pudesse, mais tarde, já no conforto do lar, imaginar. À sua chegada foi a casa dos pais, que o receberam de braços abertos e com uma mesa cheia de todos os seus pratos favoritos.

Rico não aguentou.

Cresceu-lhe tanta água na boca que ele afogou-se ali mesmo, sentado à mesa. Os seus pais ainda lhe atiraram uma bóia salva-vidas, o que foi só estúpido porque não lhe ajudou em nada. Só lhe causou um hematoma na cabeça.

Aliás, o patologista que analisou o corpo ainda pensou que a causa da morte tivesse sido mesmo o hematoma, porque era só estúpido alguém morrer de excesso de saliva na boca. Mas, quando lhe abriu o maxilar, reparou que era verdade, tanto que foi obrigado a ir buscar uma esfregona ao bloco operatório (onde estavam a tentar estancar o sangue de um paciente) para ir limpar o chão da morgue.

 

É uma pena ver uma pessoa tão jovem e saudável como o Rico morrer assim, tão cedo.

Sim, porque, apesar do seu amor pela comida, o Rico não pesava mais de 65 quilos (o seu peso ideal), já que não chegava a comer realmente; só se imaginava a fazê-lo.

 

Tenho saudades do Rico. Saudades dos jantares do pessoal em que todos nós comíamos e ele ficava só especado a ver-nos.

Grande abraço, Frederico! Espero que estejas a imaginar a melhor refeição do Mundo aí em cima.

Artimanha de Strepcox

Enquanto estava a fazer pesquisa numa biblioteca muito antiga, como parte de um game show em que estou a participar, deparei-me com vários documentos a relatar as verdadeiras origens de certas coisas que assumimos saber, apenas para estarmos totalmente errados. Pequenas curiosidades e momentos associados a alguma descoberta ou conhecimentos perdidos. Reproduzo aqui um deles, sobre a verdadeira origem de algo muito conhecido e de um procedimento perdido na história.

 

Artimanha de Strepcox

 

Não tão famosa como a manobra de Heimlich, mas praticada por alguns puristas que defendem que Strepcox foi o primeiro a inventar um método para desimpedir as vias respiratórias quando obstruídas por um objecto estranho – para objectos conhecidos Strepcox recorria a outro método, fazendo uso da familiaridade e pedindo que se desalojassem sozinhos em troca de algum favor futuro.

 

No dia em que Strepcox foi registar a sua ideia, engasgou-se com o caroço de uma maçã e teve de se afastar da fila. Enquanto tossia, um miúdo com apenas nove anos de experiencia e dez de idade correu na sua direcção e deu-lhe um grande abraço pelas costas. A pressão causada pelos sucessivos apertos que o miúdo dava fez com que Strepcox cuspisse o caroço e ficasse fora de perigo. O rapaz pensava que Strepcox era o pai que nunca tinha conhecido e quando o viu desatou a correr para o abraçar.

Ao mesmo tempo que a mãe desculpava a atitude do filho, explicando a situação (que acontecia, em média, sete vezes por dia), o funcionário no balcão de registos, Henry Heimlich (na altura frequentava o curso de medicina, mas, tendo apanhado uma grande bebedeira na noite anterior e que ainda não tinha passado completamente, havia entrado no gabinete de registos e começado a atender pessoas que se encontravam à espera. Quando deu pelo erro tentou ir embora, mas o gerente disse que agora só o podia dispensar depois do almoço.), aproveitando a distracção, escrevinhou as regras para um procedimento ao qual chamou de "Manobra de Heimlich" e registou-o na hora, roubando assim todo o protagonismo que Strepcox esperaria para si mesmo.

 

A quem possa interessar: A artimanha de Strepcox consiste em sempre que vir alguém com as vias respiratórias impedidas por algum objecto, deve correr na sua direcção com o braço esquerdo levantado e o punho fechado, com excepção do dedo mindinho que deve permanecer esticado, ao mesmo tempo que roda o pulso e faz algum barulho que se assemelhe a uma sirene. Ao chegar junto ao individuo necessitado de ajuda deve começar com movimentos de dança tradicional irlandesa à medida que dá três voltas em redor da pessoa, finalizando com uma biqueirada no meio das pernas e três valentes murros na “boca do estômago”.

Com uma taxa de sucesso de cerca de 37,89%, tem a vantagem de fornecer uma dor alternativa para a pessoa se concentrar quando já não estiver a sufocar, bem como entretenimento e distracção para acalmar os nervos de quem está a assitir.

 

 

O adeus às selfies da Alda.

Estou bastante triste.

Perdoem-me se vos escrever hoje com um significativo pesar ou até um ligeiro mau humor, mas é que acabei de chegar de um funeral de uma amiga minha. Ou DO funeral de uma amiga minha, vá, porque, em princípio, ela não terá mais nenhum depois deste.

 

A minha amiga chamava-se Alda, e morreu de selfie. "De quê?", perguntam vocês? De selfie, sim. Não me façam ter de me repetir, já sabem que eu hoje não estou bem.

O que se passou foi o seguinte: a Alda, perfeitamente consciente de que não fazia parte da lista das miúdas mais bonitas lá da escola, começou a descurar os estudos e a empenhar-se na arte de tirar selfies. Começou com câmaras fotográficas digitais e depois, quando a tecnologia o permitiu, passou para o telemóvel. Tentou todas as técnicas: pôr os dedos em "V", fazer duckface, até mostrar um pouco da parte inferior dos seios, com a barriga à mostra; de pouco lhe serviu.

Como nunca estava satisfeita, apesar de já contar com um número considerável de likes a cada selfie que tirava, continuou a tirá-las, às dezenas e centenas por dia. Começou a desenvolver uma forte rigidez no músculo do braço direito (era destra) e uma paralisia no ombro esquerdo (perdão, afinal era ambidestra).

Quando lhe foram diagnosticados ambos os problemas, ainda tentou usar o recente selfie stick para tentar reverter, ou, pelo menos, remediar a situação, mas já não foi a tempo. Alda estava condenada.

 

Numa fase final da sua vida, consta que ainda tentou pedir aos seus pares que lhe tirassem fotografias para ela colocar nas redes sociais, mas dizem que achou sempre que, sem aquele bocadinho de braço esticado num dos cantos inferiores da imagem, as fotos não eram grande espingarda.

 

Ainda não sei bem do que morreu a Alda. A autópsia fala em agravamento das suas condições nos braços, que se alastraram para o resto do corpo, mas, para mim, foi de desgosto.

Alda foi cremada, a seu próprio pedido, e as suas cinzas espalhadas numa loja da Apple que, ao lado, tinha uma fábrica de espelhos, as duas coisas que ela mais gostava na vida.

 

Sinto falta da Alda.

Sinto falta das suas selfies.

 

Partilhem esta publicação, em nome de todas as Aldas que conhecem neste Mundo!

Porque a minha, infelizmente, já não faz parte dele.

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