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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. III

     - Esteves, alguma novidade? – perguntaram-lhe pelo walkie-talkie.

     - Ainda nada, chefe – respondeu o Esteves.

     - Continua à procura, então.

     Manuel Esteves ainda não tinha a certeza do que queriam que encontrasse. Tinham-lhe pedido para rever as cassetes de segurança daquele dia, particularmente a do corredor do quarto 59. E ele bem que procurava, mas não via mais ninguém a entrar naquele quarto para além de uma enfermeira de meia-idade cujo nome agora não se lembrava bem e, a dada altura, vários enfermeiros e médicos que corriam na direcção do quarto, como se uma emergência tivesse ocorrido. Era tudo o que as cassetes daquele corredor lhe mostravam para aquele dia, mas parecia não ser suficiente para os seus superiores.

     Mas foi isso que lhes disse.

     - Senhor, continuo sem ver mais do que aquilo que lhe disse há pouco. Tudo normal até à altura do incidente.

     - Certo, Esteves, vamos analisar a situação por aqui. Continua atento – ordenou-lhe o chefe da segurança do hospital.

     Manuel recostou-se nas costas da cadeira. Estava cansado de tudo. Aquele novo trabalho não era especialmente difícil ou exigente, mas acordar cedo todos os dias para ir para a monotonia do cubículo escuro ver ecrãs a preto e branco o dia inteiro não era propriamente uma fonte de entusiasmo e de adrenalina. Sentia-se como uma pessoa que, quanto mais dorme, mais quer dormir – embora não dormisse mais do que o tempo necessário todos os dias.

     A situação só melhorava quando partilhava o dia de trabalho com o Sousa, que, embora lhe ocupasse algum espaço no cubículo, sempre era uma companhia, e era um tipo divertido. Mas o pai do Sousa tinha morrido, e o rapaz estava de licença.

     «Continua atento», tinham-lhe pedido. Mas Esteves já tinha tido atenção suficiente por um dia, e sabia que pouco mais tinha para fazer, a menos que alguém lhe desse uma enxada para a mão ou lhe fizessem mais algum pedido pelo rádio. E, nessa altura, acordaria.

     Fechou os olhos e tentou dormir, mas, ao abri-los novamente para uma última análise ao ambiente que o rodeava, viu muito perto dele duas bolas amarelas e ameaçadoras. Foi a última coisa que viu, embora conseguisse sentir enquanto esquartejavam os seus quatro membros de uma só vez.

 

***

 

     Tomás Sousa estava de licença, era verdade. Mas sentia-se culpado por ter deixado o Esteves sozinho naquele cubículo nos últimos dias. Como ia regressar ao trabalho logo no dia seguinte, decidiu surpreender o colega e levar-lhe um quiche vegetariano feito pela mulher, com alguns vegetais que o próprio colega havia colhido e lhe havia oferecido como forma de lhe dar os sentimentos. Além disso, conversar com o Esteves fora do contexto do trabalho ia fazer-lhe bem.

     Contudo, quando abriu a porta da garagem onde estava o cubículo das câmaras de vigilância e olhou para dentro, não viu nada para além de manchas de sangue nos vidros e de um rasto da mesma substância no chão, que desaparecia completamente alguns metros mais à frente. Os ecrãs continuavam ligados e a cadeira do colega estava caída de costas, mas não havia sinal do Esteves.

     Tomás carregou num botão da mesa e falou para o microfone, pedindo ajuda.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. II

     Sonhava. Com os campos, com a terra fresca, com a neblina matinal que gelava os ossos e humedecia as enxadas; sonhava com o sol do meio-dia e a brisa que lhe secava o suor quando se recostava numa faia. Sempre sonhara apenas com o que conhecia, pois imaginação era uma das coisas que também nunca tinha tido e a sua visão do mundo sempre fora ordinária e restrita ao que o rodeava.

    Entretanto, apercebeu-se que não sonhava, mas que lembrava. O cérebro convalescia em memórias enquanto se mantinha num estado de subconsciência. A cacofonia que ouvia era a orquestra de enfermeiros e médicos, o tilintar de pequenos objectos de metal; sentia o frio nas costas e uma dor na perna. Ou onde devia estar uma perna, já não tinha a certeza de nada. Não sabia quanto tempo passara, onde se encontrava, ou o que estava a acontecer exactamente, mantinha-se naquele limbo existencial entre memórias e presente.

     Uma vez tinham-lhe dito que antes de morrer toda a vida nos passava pelos olhos em imagens. Luís nunca ligou nenhuma a essa informação, mas agora pensava se não seria isso que estava a acontecer. Estaria ele a ver o filme da sua vida, o presente de despedida que Deus nos confere? Não tinha vontade de viver nem de morrer, não tinha vontade de nada. Sempre aceitara que viveria enquanto tivesse que ser e morreria quando chegasse a hora. Entregou-se às memórias que continuavam a mostrar-se e abandonou a pequena noção que tinha recuperado do mundo real.

     Via coisas que não sabia que estavam guardadas na sua mente, via coisas das quais se lembrava de maneira diferente. A realidade não é tudo o que parece e as certezas da memória não passam de percepção, mas Luís não o compreendia totalmente. Só estava contente por se ver criança a correr.

     Em consciência não se lembrava de tudo o que agora revia, mas era assim que as coisas tinham sido. Era o que lhe diziam as memórias agora desbloqueadas. Reviu o dia em que faleceu o pai. O dia em que, com os seus tenros catorze anos, saiu pela alvorada para lavrar a terra, naquele que seria o primeiro dia do resto da sua vida. Nunca mais tinha pensado nisso desde que aconteceu. Parecia tudo novo, seria possível ter revelações sobre as próprias vivências? Ao fim da manhã, meras horas após a terra ter assentado em volta do caixão do pai, parou para merendar. Sentado ao abrigo de uma faia, não ouvia vivalma. Foi, por isso, com surpresa que notou no homem a aproximar-se dele, que se prostrou à sua frente tapando o sol. Como podia ter esquecido aquele homem e a involuntária inquietação que ele o fez sentir?

     Por embaraço, ou cautela, não tinha dito muito, limitando-se a responder. A vida não é mais que isto, dizia-lhe o homem, que só a terra provia. Desde que continuasse nos seus afazeres, que se dedicasse à terra, nada lhe faltaria. As couves seriam sempre verdes e as batatas não faltariam, era uma garantia pessoal. Era só o que preocupava Luís naquela altura e ali estava um estranho a assegurar que desde que se mantivesse focado na terra, viveria com sustento e sem preocupação. Isso e apertar-lhe a mão, dizia o homem, assegurava essa fertilidade e futuro. E trabalho, sempre muito trabalho. Da escravidão do trabalho não se safava, como o pai tinha feito, disse-lhe o homem, era uma troca justa, acrescentou. Luís não percebia, mas certo é que apertou a mão ao homem. Fitou os seus olhos amarelos enquanto o fazia, ardentes, ansiou por recolher a mão que fervia, mas não conseguia desviar o olhar. No final, venho buscar-te, bocado a bocado, disse o homem.

     Luís abriu os olhos numa ânsia sôfrega, zonzo e com a mão a escaldar. Notou que estava amarrado à cama.

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. I

     Luís Fagundes nunca teve filhos. Também nunca teve uma família, nem sequer uma casa. Luís Fagundes, bem vistas as coisas, nunca teve nada. Agora, naquele lar para onde tinha sido transportado após a morte da irmã, também não tinha uma perna. Pelo menos já não a sentia. Aparentemente, iam cortá-la por causa de uma doença qualquer que Luís mal sabia o que era, mas que lhe diziam que tinha. E ele, como sempre fora uma pessoa conformada, anuía. Mas talvez não o tivesse feito se soubesse que, como consequência, lhe iriam retirar um dos seus quatro instrumentos de trabalho – os seus membros.

     Toda a vida Luís tinha trabalhado a terra. Tinha sido o seu único sustento e contribuição (embora mínima) para a casa da irmã e do marido dela, onde sempre residira após a morte dos pais. Apesar de tudo, não era um inquilino especialmente incomodativo. De manhã à noite, tendo o cuidado de levar algumas merendas consigo para não ter de ter o trabalho desnecessário de parar de trabalhar, ficava nos campos e plantava um pouco de tudo, mas com especial destaque para as batatas.

     Ninguém sabe bem o porquê de Luís não ter dado um pontapé mais a fundo na sua própria vida – nem sequer o próprio. Mas, ao que tudo levava a crer, tinha sido feliz de enxada na mão e em longas conversas com os outros homens da freguesia num banquinho que havia no adro da igreja. Ali, falava-se principalmente de agricultura – pelo menos quando passava alguém, porque toda a gente sabe que os homens falam de muita coisa quando estão sozinhos.

     No entanto, cavar a terra ao pé-coxinho ainda não é, nos tempos de hoje, factível. Existem demasiadas condicionantes; e Luís, embora tivesse alguns indícios de demência e estivesse ainda meio zonzo por causa da medicação, sabia-o.

     Começou a chorar, mas sem derramar qualquer lágrima. Habituara-se a chorar para si mesmo ao longo de toda a vida. Era capaz de entrar e sair de um longo estado de depressão sem alguém notar, mesmo a família, até porque nada disso alguma vez o impedira de continuar a trabalhar e a seguir com a sua vida.

     A sua auto-comiseração foi interrompida por uma das enfermeiras que costumava visitá-lo. Não era bonita nem feia, mas Luís também nunca tinha tido grande apreço por essas questões de beleza. Só tinha tido uma namorada e não durara muito tempo, até porque fora naquela altura em que pouco tempo de namoro não dava direito a muitas trocas afectivas – não como hoje em dia, achava ele.

     A enfermeira pediu para entrar e, ao olhar para a cama de Luís, deu um grito. Apressou-se a pedir ajuda na direcção geral do corredor e a lançar-se para o armário das toalhas. Luís só teve tempo de a ver despejar uma grande quantidade de toalhas brancas em cima da cama que, ao serem levantadas, tornavam-se avermelhadas. Não sabia o que se estava a passar, mas sentia-se cada vez mais zonzo; e já não tinha a certeza de ser da medicação.

     Adormeceu.

Crónica de um dia azarado

Já tive vários dias maus, mas nunca tinha tido um dia como ontem. 

A manhã começou como qualquer outra, com o nascer do sol. Normalmente é assim. Por alguma razão o despertador não tinha tocado e só acordei com um estrondo e um cheiro a queimado. O despertador não tinha tocado nem iria tocar mais, já que o telemóvel tinha acabado de explodir. Saltei rápido da cama, sem tempo para me preocupar com o que se tinha passado, tinha um dia importante pela frente.

Devido ao que se passou com o telemóvel, ligado à corrente, também fiquei sem electricidade. Bem que as torradas não ficavam prontas e eu ainda demorei a perceber. Arranjei-me às pressas e quando vou sair dou com a porta trancada. Nada de muito estranho, mas tinha deixado as chaves no escritório. A minha mulher já tinha saído para ir levar o pequeno à escola e tinha-me deixado trancado em casa. Era só o que me faltava, logo no dia em que tinha uma reunião importante com um cliente que precisava convencer a avançar com o nosso projecto. Falhar nesta tarefa implicava o desperdício de recursos e trabalho de meses, bem como um grande prejuízo que resultaria em despedimentos.

Ora, neste ponto estou eu todo aprumadinho mas atrasado meia hora e fechado num quinto andar sem possibilidade de sair, sem telemóvel nem electricidade. Nem podia comunicar com ninguém. Tinha de sair de casa de alguma maneira, tinha de chegar a tempo à reunião, todo o projecto dependia de mim. Sei bem como funcionava o Macgyver, sabia o que tinha a fazer: fui buscar um ananás, um sapato velho e um isqueiro. Num pedaço de papel escrevi uma rápida mensagem a explicar o que se passava e requisitar ajuda e meti-a dentro do sapato velho. Atirei-o pela janela, sentei-me a comer o ananás, já que não tinha chegado a comer as torradas, e acendi uma vela a nossa Senhora de Fátima, porque uma reza podia ajudar a resolver a situação. Já agora, nunca vi um episódio do Macgyver, se calhar não era bem assim que ele tinha resolvido o problema. Para mim não resultou. Alguém pegou no sapato e atirou-o para o lixo, ignorando os meus apelos da janela, como toda a gente o estava a fazer.

 

Com isto tudo, já estávamos na hora da reunião e eu ainda trancado em minha casa. Posso nunca ter visto o Macgyver, mas o James Bond conheço e sei que não eram 5 andares que o iam derrotar. O plano passava por pendurar-me na janela e deixar-me cair para a varanda do andar de baixo, e assim sucessivamente até chegar ao chão. 

Pequenos pormenores que só me ocorreram quando já estava pendurado na minha janela e sem força para me içar de novo para dentro: as varandas são na parte de trás do apartamento e tenho outra porta, ao lado dessa varanda, que dá acesso a um pátio que tem outra saída para o exterior. Porta essa que tem a chave na fechadura.

Resumindo, eu continuava pendurado, nem para cima nem para baixo. A polícia e os bombeiros apareceram e acabei a amanhã no hospital para avaliação psiquiátrica. Depois de conseguir convencê-los que tudo não passara de um mal entendido, que não tinha tendências suicidas, era só estúpido, deixaram-me sair. Com sorte, nunca tinham conseguido contactar a minha mulher, porque eu não sabia o número de cor, e assim evitava esse embaraço e não lhe causava preocupação.

 

Fui até ao escritório, sem saber ainda como ia explicar tudo aquilo. Já tinha lixado todo o projecto, portanto nem sabia o que esperar. Só quando lá cheguei é que me apercebi de algo que todos vocês já sabem e se aperceberam: ontem era Domingo. Por isso é que o despertador não tinha tocado. Era dia da mãe, e a minha mulher tinha ido tomar o pequeno almoço com a sua. O meu filho devia estar no quarto a dormir. 

A caminho de casa, e maltrapilho como estava, de fato rasgado e com uma postura deformada derivada da hora que passei agarrado ao parapeito, fui confundido por um pedinte e um senhor deu-me uma moedinha. Agradeci, pois sempre me ensinaram a aceitar prendas. Quem não gostou foi mesmo um pedinte que andava ali por perto e ao qual não calhou nada. Veio gritar-me que aquilo era o seu território, para eu arranjar um para mim. Dito isto, deu-me um enxerto de porrada e roubou-me a carteira. 

 

Quando finalmente cheguei a casa, a minha mulher abriu-me a porta. Nem me deixou explicar bem o que se tinha passado, e disse que era bem feita eu ter levado um enxerto de porrada, para aprender a não ser um xoninhas pacifista. Que era por coisas dessas que estava farta de mim e que ia avançar para o divórcio. Além disso, tinha deixado o rapaz sozinho em casa. Eu nem estava a processar bem o que se estava a passar e ela diz-me que vai sair, para espairecer, para eu não deixar o nosso filho sozinho outra vez.

 

Eu só queria dormir, descansar um bocado e perceber o que raio estava a acontecer. Deitei-me no sofá e olhei o aquário que temos na sala. Estava uma nojência, quase que nem se via o peixe. Sempre a mesma coisa, ele nunca limpa o aquário. Chamei o Ramiro e disse-lhe para limpar aquilo, que não era maneira de se ter um peixe assim, para ele lhe tratar da saúde. 

Mal tinha adormecido para a minha sesta quando desperto novamente com repetidos estrondos. Vou rapidamente à cozinha ver o que se passa e dou com o Ramiro a estraçalhar o peixe com o martelo dos bifes. Chorava sem parar enquanto o fazia, mas não parava. Parece que o que aconteceu foi um pequeno erro de comunicação, fui mal interpretado quando lhe ordenei que tratasse da saúde ao peixe. Olhando para trás, talvez tenha sido má ideia fazer uma maratona dos filmes d' O Padrinho com um puto de 6 anos. Eu só queria que ele limpasse o aquário, pela saúde e bem estar do animal.

 

O resto do dia passou-se em silêncio e sem muito a relatar. À noite, antes de me ir deitar, pensei em tomar um duche para relaxar. Quando estava na banheira decidi fazer flexões. Se tivesse em melhor forma física não tinha ficado pendurado na janela, nem tinha apanhado tanta porrada. Além disso, sempre a inovar, um 2 em 1: flexões no duche. Exercício e banho ao mesmo tempo, só aqui estou a aproveitar muito melhor as horas do dia. O que acabou por acontecer foi que o braço escorregou-me bati com a cabeça. Quando voltei a mim, a casa de banho estava inundada, sangue jorrava-me da cabeça, o braço esquerdo não deixava de me apontar para a nuca e o meu filho vinha a caminho com o martelo dos bifes para me tratar da saúde.

 

Vendo bem as coisas, nem se passou muita coisa, o dia não foi mau de todo. Isto podia ter acontecido a qualquer um. Já agora, tendo em conta que estou no hospital desde ontem à noite e conto com um grande número de novas despesas, se alguém estiver a contratar...

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#09)

Neil Gaiman publica um novo livro e isso, normalmente, é suficiente para me interessar. Ainda para mais quando vejo o título e faço a pré-encomenda, passando os restantes meses de espera a fantasiar, a gerir a expectativa e a pensar em como finalmente vou ficar a saber tudo sobre mitologia equídea.

 

Guia de marteladas históricas

  

Sim, perceberam bem, mitologia equídea. Isto porque, quando vi o anúncio ao livro, o que li foi "Horse Mythology". Fiquei-me por aqui, que não gosto de saber muito mais sobre um livro antes de o ler. Ora, isto para mim foi suficiente para me cativar. Delirei a imaginar todos os segredos e história desta rica mitologia que ainda não conhecia. Calculei que ficaria a saber, por fim, como se formaram os primeiros unicórnios, a lenda do primeiro galopador, os segredos por trás do astuto cavalo que inventou o trote, o Deus maior dos cavalos, o grande Pégaso... Ou, ainda, as origens do conflito de titãs entre cavalos e touros, que segundo consta foi o que deu origem à separação dos continentes, a história do malandro cavalo que se aventurou fora da sua espécie e foi ostracizado e relegado a um pónei como penitência, as magníficas circunstâncias que levaram à criação de ferraduras... E, claro, sem esquecer o fim do mundo, presente em todas as mitologias de valor, que se daria num épico confronto liderado por um pónei revolucionário, cansado de ser motivo de chacota entre os seus e de adoração entre os humanos, a libertação dos touros e a insurreição dos unicórnios.

 

Tinha tudo para ser das melhores obras de sempre, a quem é que isto não interessaria?

No entanto, só quando recebi o livro é que notei que afinal era  "Norse Mythology".

 

Before the beginning there was nothing – no earth, no heavens, no starts, no sky: only the mist world, formless and shapeless, and the fire world, always burning.

 

Neil Gaiman chama a si a tarefa de nos contar os mitos nórdicos, toda a fantasia, e história, que os envolvem. Não são contos de ficção com base na mitologia nórdica, mas sim os contos desta mitologia contados pela voz do autor. No fundo acaba por ser um livro de não-ficção, tanto quanto se pode considerar não ficção os acontecimentos que sustentam toda uma mitologia. 

Esta mitologia sempre esteve presente nos trabalhos do autor, como inspiração ou a popular os seus trabalhos com algumas das suas personagens. Aqui, Gaiman conta-nos o clássico. Com o seu estilo, a sua escrita harmoniosa e sempre poética, abordando os mitos como se estivesse a escrever um conto de ficção, mas sempre com base, apenas, na mitologia nórdica. É o equivalente a passar uma noite com Neil Gaiman ao relento, em que ambos puxamos de um copo de hidromel enquanto no céu se manifesta uma aurora boreal. E, pela sua voz, ele encanta-nos e dá-nos a conhecer estes mitos.

Of course it was Loki. It's always Loki.

 

Tomando como referência apenas os clássicos, o Edda em prosa e o Edda em verso, Neil Gaiman adapta os mitos e partilha a sua história, estruturado como um livro de contos tradicional e não como um manual ou algo enciclopédico. Torna tudo ainda mais apelativo e interessante de conhecer, servindo como ponto de partida e descoberta, uma boa introdução, para toda esta mitologia. A forma acaba por se basear no conhecimento e ponto de vista de três dos principais Deuses nórdicos, e porventura os mais conhecidos Odin, Thor e Loki. São eles a força motriz por trás da maioria dos acontecimentos. Todo o livro se desenvolve como se de um Romance se tratasse, devido à forma como está estruturado. Começando pela criação do mundo, acompanhamos todos os eventos, as relações e interacções entre os Deuses desde a criação de Asgard e sempre num crescendo até ao clímax que é o Ragnarök. Pelo meio, ficamos a saber como é que se construiu o muro à volta de Asgard, ou como os Deuses obtiveram alguns dos seus tesouros, como o martelo do Thor, ou, ainda, as origens da poesia, por exemplo.

 

O livro é bom, "simpático", despreocupado, leve, pautado com muito humor (a parte mais fraca para mim, um bocado inocente, infantil demais), bem estruturado, interessante e informativo. Tem uma aura mítica que rodeia o conto destas hitórias, apoiada pela escrita e estilo do autor, o que só contribuiu para o melhorar. Lê-se de uma assentada, imbuído no espírito e fascínio de toda uma mitologia, da sua história, do que sutenta, ou sustentou, toda uma outra cultura. 

 

The fun comes in telling them yourself—something I warmly encourage you to do, you person reading this. Read the stories in this book, then make them your own

 

A página em branco

Ultimamente não tenho escrito muito, nem aqui nem só para mim. Tal facto não incomoda ninguém a não ser eu próprio, porque gosto de o fazer. Podia listar um sem número de razões para ter acontecido isto, mas a verdade é que a culpada acaba por ser só a preguiça. O que não deixa de ser um contra-senso, pois é algo que me traz satisfação e prazer, algo que estimo. Mas, como em imensas destas situações, mesmo que seja algo que queira muito fazer, acabo por deixar passar por preguiça de começar.

 

Claro que o tempo, ou falta dele, é sempre um factor, mas não é desculpa neste caso. Podiam haver outras razões, como o famigerado medo da página em branco. 

Contudo, ideias não me faltam. Não é para me gabar, mas tenho uma enorme quantidade de ideias de coisas para escrever. Nenhuma delas boa e que valha a pena, tal como na maioria das vezes; mas elas existem e não é um problema. E mesmo que não tivesse, era isso que me ia impedir? Quem já leu algo do que aqui publiquei pode atestar que não.

 

Outra coisa tem a ver com esta noção: o medo da página em branco. A página em branco não assusta, aliás, só pode reconfortar, dar segurança...

A página em branco não pode magoar ninguém, não ofende ninguém, não choca ninguém. Enquanto a página estiver vazia, nada acontece, ninguém gosta e ninguém odeia. A página em branco é sem opinião e sem visão, não é um princípio e é sem fim. A página em branco é segurança, porque é sem risco. Enquanto não se fizer nada, nada acontece. A página em branco é sem identidade; é uma não existência e o que não existe não assusta, não pode influenciar nada, não provoca reacção nenhuma e isso é sempre seguro. 

A única altura em que uma página em branco podia assustar seria se chegasse ao supermercado e a lista de compras estivesse em branco e eu ficasse sem saber o que me faltava. Ou se estivesse a fazer uma lista de pessoas que me são queridas e a página permanecesse em branco. Ou se fosse indicado como suspeito num caso de homicídio e a única prova que tivesse para atestar o meu álibi fosse um qualquer documento que, de repente, estava em branco. Isto seriam situações em que compreenderia o medo da página em branco, porque de resto, não nos pode tocar, por isso não há que ter medo, certo?

 

Ou então assusta, mas não por si mesma: por ser uma representação do nosso estado interior, do vazio que nos assola, da falta de identidade e visão, da falta de um princípio, da falta de coragem ou propósito, de um outro medo maior; o de arriscar e falhar. A página em branco é uma lembrança constante do que não temos, do que falta, da extrema segurança e monotonia que se disfarça de conforto, uma constante visual da estagnação.

 

A página escrita, essa, é que assusta. Aí é que está o perigo, as opiniões, os gostos, as ideias, as emoções. A página escrita é que pode ameaçar ou reconfortar, fazer nascer ou quebrar, inspirar e admirar ou delirar. Na página escrita é que há vida em cada palavra, é que provoca reacções, é que existe a possibilidade de ser horrível. É que pode desiludir e fazer cair, ofender e deitar tudo a perder, mas é também ela que conquista. É onde existe o risco, que tem de ser encarado e aceite. É uma queda livre sem saber se o pára-quedas se abre.

 

Sim, a página escrita é que assusta, é a única que tem consequências. 

É aí que está o medo.

Mas o medo é bom. O medo é necessário. O medo é vida. Vai sempre existir.

Uma página em branco não é ameaça, quanto muito é mordaça e, nesse caso, assustaria.

A página em branco é um limbo existencial, não há consequências. Nem positivas nem negativas.

Antes arriscar. Antes ficar assustado. Porque é a página escrita que faz o coração bater mais depressa, é ela que tem algum significado. Não se assustem com uma página em branco: é inofensiva. Preencham-na com palavras e sintam o que houver para sentir.